Arcos de Valdevez: Castro de Eiras revela ocupação com mais de 2.000 anos e vestígios da Idade do Ferro. Município quer criar Centro Interpretativo

Uma intervenção arqueológica em Arcos de Valdevez revelou um castro com mais de 2.000 anos, com vestígios da Idade do Ferro e elementos de romanização, considerado um dos mais significativos do Norte de Portugal. A descoberta inclui ainda uma pedra formosa “raríssima”, elemento que reforça a relevância histórica e simbólica do sítio.

Micaela Barbosa
5 Fev. 2026 4 mins
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Câmara Municipal de Arcos de Valdevez

O local, conhecido como Castro de Eiras, foi alvo da primeira escavação científica no verão de 2025, conduzida pela empresa Era Arqueologia em parceria com o Município de Arcos de Valdevez. 

A intervenção teve como objetivo “avaliar o potencial arqueológico da área”, que se revelou “bastante grande”, não só pela dimensão do castro, implantado numa área de cerca de 10 hectares, mas também pela conservação e extensão dos vestígios.

A prospeção geofísica, recorrendo a georradar e magnetometria, permitiu identificar uma vasta área com múltiplos elementos arqueológicos, incluindo habitações, arruamentos, estruturas defensivas e silos, associados a uma ocupação entre os séculos II a.C. e I d.C.. Segundo o Município, “na primeira campanha arqueológica foi possível constatar que a descoberta tem ligação à Idade do Ferro, com a presença de ruínas de uma casa redonda, com um vestíbulo exterior, e alguns silos, que serviriam para armazenar produtos”.

As escavações revelaram também elementos de romanização, integrando o castro num projeto mais amplo de estudo da Romanização do Vale do Vez, o que coloca o Castro de Eiras numa lista de referência para o Norte de Portugal e para o país.

De acordo com o arqueólogo municipal e chefe da divisão de Desenvolvimento Sociocultural da autarquia, Nuno Soares, estão previstas novas campanhas arqueológicas anuais, pelo menos até 2029. “Essas escavações vão permitir revelar mais sobre o castro e, sobretudo, encontrar soluções para a sua recuperação. O nosso objetivo é criar uma musealização in situ, recuperar uma ou duas casas e criar um centro interpretativo”, explicou, sublinhando que a existência do castro era, até então, “uma mera referência”.

A importância excecional do sítio resulta, em grande medida, da descoberta, “por mero acaso”, de uma pedra formosa, elemento arquitetónico associado a balneários castrejos e considerado extremamente raro. “Há meia dúzia de exemplares em Portugal. Esse facto já quer dizer que era um castro estrategicamente importante”, salientou Nuno Soares.

A pedra formosa foi identificada em 2015, quando estava a ser utilizada na parede de uma casa de um emigrante. O monólito, com cerca de três toneladas, apresenta uma decoração rica, realizada por gravação e fricção, com espirais, círculos, linhas e covinhas, de significado e funcionalidade ainda debatidos pela comunidade científica. Integraria uma estrutura de banhos, possivelmente ligada a rituais iniciáticos das comunidades castrejas. A peça foi cedida à Câmara Municipal e pode hoje ser visitada no espaço Valdevez, sendo considerada uma das “jóias da coroa” do património local.

O presidente da Câmara Municipal, Olegário Gonçalves, sublinhou a importância da descoberta e o envolvimento da comunidade. “Queremos que a população conheça melhor esta herança histórica e se orgulhe desta descoberta”, disse, anunciando a realização de visitas guiadas exclusivas para a população local e confirmando que as escavações irão prosseguir nos próximos anos.

Em parceria com a empresa Era Arqueologia, o Município promoveu recentemente ações de sensibilização dirigidas às freguesias de Eiras, Mei e Aboim das Choças, com o objetivo de “despertar a população para a importância dos trabalhos arqueológicos desenvolvidos no designado Castro de Eiras e para a sua preservação”. 

Paralelamente, a autarquia planeia a criação de um Centro Interpretativo, visando a “valorização do património arqueológico e a dinamização da economia local”.

c/ Lusa

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