Num momento em que Portugal continua a apostar na prevenção dos incêndios rurais e na gestão ativa da floresta, os sapadores florestais alertam para a falta de valorização da carreira está a dificultar o recrutamento de novos profissionais. A preocupação foi transversal às intervenções do Encontro Anual de Sapadores Florestais do Alto Minho 2026, que reuniu cerca de 150 operacionais e responsáveis institucionais em Vila Nova de Cerveira.
Na sessão de abertura, autarcas, responsáveis da Proteção Civil e representantes do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) deixaram claro que a valorização da carreira é hoje uma condição essencial para garantir a continuidade e o reforço deste dispositivo especializado.
O presidente da Câmara de Vila Nova de Cerveira, Rui Teixeira, destacou o trabalho desenvolvido ao longo de todo o ano pelas equipas de sapadores florestais, sublinhando que grande parte dessa atividade continua a decorrer longe da atenção pública. “Estamos a falar de um trabalho desenvolvido ao longo de todo o ano e que nem sempre é valorizado como deveria ser”, afirmou, agradecendo a dedicação dos operacionais e manifestando orgulho pelo trabalho realizado no Alto Minho em matéria de prevenção e segurança das populações.
A preocupação com a valorização profissional foi igualmente partilhada pelo presidente da Câmara de Valença, José Manuel Carpinteira, que defendeu “um reconhecimento mais justo” para uma atividade considerada estratégica para a gestão do território.
Segundo o autarca, uma profissão mais valorizada será também mais atrativa para novos trabalhadores, num momento em que várias entidades enfrentam dificuldades crescentes no recrutamento de operacionais.
O alerta foi reforçado por Tiago Cunha, presidente da Comissão Distrital da Proteção Civil de Viana do Castelo e da Câmara Municipal de Paredes de Coura. “Não desanimem. É cada vez mais difícil recrutar sapadores florestais e este é um processo que pode levar algum tempo, mas acredito que vamos conseguir dar este passo fundamental”, afirmou.
Para Tiago Cunha, a perceção pública sobre a importância dos sapadores florestais tem vindo a evoluir, mas essa valorização social ainda não encontrou correspondência plena ao nível das condições da carreira.
Também o comandante sub-regional de Emergência e Proteção Civil do Alto Minho, Marco Domingues, defendeu um aproveitamento mais abrangente das competências destes profissionais, lembrando que as equipas possuem um nível de especialização raro no sistema de proteção civil. “Vocês são exímios na prevenção, mas podem também desempenhar um papel ainda mais relevante na vigilância, na dissuasão e na primeira intervenção”, afirmou.
O responsável destacou ainda a capacidade técnica das equipas na operação de maquinaria pesada, considerando que essa especialização continua subaproveitada e insuficientemente reconhecida.
Em representação do ICNF, Miguel Gonçalves apresentou o Plano de Intervenção para a Floresta 2025-2050, documento estratégico que define a política nacional para o setor nas próximas décadas e assenta em quatro pilares: valorização, resiliência, propriedade e governança.
O plano prevê medidas de reforço da gestão florestal, da prevenção dos incêndios e da modernização operacional do setor.
O responsável destacou igualmente os apoios em curso dirigidos às equipas de sapadores florestais, incluindo o reforço do número de equipas, a modernização dos meios disponíveis e a distribuição de maquinaria especializada, com a segunda fase do programa de entrega de tratores já em implementação. “Muito tem sido feito, mas há ainda caminho a percorrer”, reconheceu.
Atualmente, os sapadores florestais constituem um dos principais instrumentos permanentes de gestão e defesa da floresta em Portugal.
As equipas estão distribuídas por todo o território continental, com maior concentração nas regiões Norte e Centro, desempenhando funções de silvicultura preventiva, gestão de combustível, vigilância e primeira intervenção em incêndios rurais. São ainda reconhecidos legalmente como agentes de proteção civil.
Em 2026, o apoio anual ao funcionamento de cada equipa foi atualizado para mais de 65 mil euros, refletindo a atualização dos custos operacionais e salariais.
O Governo e o ICNF têm igualmente vindo a reforçar os programas de financiamento destinados à aquisição de equipamentos de proteção individual, veículos e maquinaria especializada.
Para além das intervenções institucionais, o encontro incluiu uma componente operacional. Durante a manhã, a Praça da Galiza recebeu um exercício LIVEEX promovido pelo ICNF, concebido para testar a prontidão das equipas, a coordenação entre entidades e a capacidade de resposta perante cenários de emergência à escala real.
O programa prosseguiu durante a tarde em Valença, no Monte do Faro, com uma palestra técnica dedicada às operações de rescaldo, orientada por Emanuel Oliveira, investigador doutorado em Gestão Sustentável do Solo e da Terra.
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