Aos saudosistas

Isabel Campos
28 Mai. 2026 5 mins
Paisagem

Para preparar um trabalho que me pediram, regressei aos meus 6/ 7 anos, à
minha escola primária, nos anos 60.

Não me lembro se alguém me acompanhou no primeiro dia, mas penso que não. Iria, com toda a certeza, com algum receio, pois a professora que ia ter era bem conhecida pela sua “simpatia”, afabilidade e paciência. Era o seu último ano e já tinha sido professora das minhas irmãs um pouco mais velhas do que eu. Se não trazia o seu imaculado cabelo branco impecável, o dia ia correr mal…

Numa vila, agora cidade como quase todas, o edifício escolar era a típica Escola Conde de Ferreira. (Joaquim Ferreira dos Santos (1782-1866), dono de uma colossal fortuna, sem descendência, entre outros actos de benemerência, mandou construir 120 escolas, assim como o Hospital Conde de Ferreira para doentes do foro psiquiátrico, o que dava sempre azo a comentários jocosos por a nossa sala ter bem patente o nome do Conde… Em Viana do Castelo existiu uma dessas escolas no local onde, actualmente se encontra o SLAT.)

Escola com boas condições, com todo o material necessário, salas para meninas e salas para meninos, ginásio, que não se usava, casa do professor, também não usada, cantina, recreios amplos e instalações sanitárias razoáveis.  Alguns alunos usavam bibes, pastas de couro e estavam bem calçados.

No lado oposto, a escola onde uma das minhas irmãs já leccionava – duas salas para todas as classes, sem cantina sem instalações sanitárias com direito a esse nome. O recreio era enorme, pois havia muitos campos, à volta e uns medronhos junto ao regato… Não havia pastas, mas sacolas de pano azul, onde vinham os livros sem capa de papel de ferro, muito usados, uma lousa por vezes já sem a moldura de madeira e um bocado de broa, quando havia. Nos pés, uns socos ou botas de atanado. Mãos cheias de frieiras, pouca roupa quente. Notava-se naquelas caras fome e ausência de tudo. A única coisa em quantidade era o número de irmãos…

Tudo se pagava, logo, quase tudo faltava. Quando estava na 4.ª classe, da escola da minha irmã, apenas um aluno, o Francisco, foi meu companheiro de aulas extra para preparação da admissão ao Liceu. No caso dele, ao seminário, oportunidade única para muitos poderem continuar a estudar. Não foi padre, foi professor – cumpriu outra missão.

Voltando à minha escola – nem todas tinham bibe, nem todas tinham pasta. Havia quem viesse e regressasse a casa com fome. Havia quem levasse mais “bolos” por causa do ditado que não estudou, por falta de tempo, por ter de tomar conta dos irmãos mais novos, do trabalho do campo, ou por necessitarem de mais apoio na aprendizagem, coisa que não existia.

As diferenças continuavam no final da 4.ª classe quando fazíamos um exame completíssimo com prova escrita – ditado, contas, problemas – e uma prova oral – leitura e perguntas sobre as outras matérias. Apenas iam a exame os alunos que garantiam uma aprovação. Os alunos da escola da vila estavam em casa. Conheciam a escola e os professores. Havia roupa nova e íamos à vontade. Os outros vinham para um local desconhecido, calçados com uns sapatos que já lhe apertavam os pés, com uma roupinha melhor, mas ainda não fato novo, para eles, que só seria comprado, quando possível, para a comunhão solene, no mês de Setembro seguinte.

De tarde, voltávamo-nos a encontrar, no adro da igreja, debaixo de um plátano (que caiu há uns anos, matando uma criança) para um joguinho de “truque” (jogo da macaca), com as nossas pedras de estimação – fundos de tijelas bem polidas. Era um divertimento e uma algazarra até ao começo da doutrina (catequese). Sentávamo-nos em bancos corridos e continuávamos a papaguear mandamentos, milagres, parábolas, o desastre do Titanic, como já tínhamos feito com os reis, as dinastias, os rios, as preposições…

Quando chegavam as latas do queijo enviado pela Caritas americana, a catequista, a Sr.ª D. Ildinha, pedia a quem não precisava para a ajudar a cortar o queijo que iria ser distribuído a famílias sem possibilidades de o comprar. Apesar de ser um produto que tinha em casa, custava-me não poder comer um bocadinho daquele queijo bem amarelinho. Ainda hoje, não resisto a um Cheddar…

Acabado este ciclo, a debandada foi grande. Nem todas as minhas colegas continuaram a estudar. O colégio era privado e pagavam-se propinas e livros. Da outra escola, como já disse, apenas o Francisco continuou.

E ainda há saudosistas desse tempo! Não me venham com a história de que se sabia mais. A menina de cinco olhos é que trabalhava mais!

Vivia-se a escola como se vivia o país – com medo!

 

SUGESTÕES

Ler – Educação e sociedade no Portugal de Salazar, Maria Filomena Mónica

Ouvir – Harmonie du soir, Franz Liszt  (nestes dias desarmoniosos)

 

(Escrito de acordo com a ortografia antiga)

Tags Opinião

Em Destaque

Notícias atuais e relevantes que definem a atualidade e a nossa sociedade.

Opinião

Espaço de opinião para reflexões e debates que exploram análises e pontos de vista variados.

Explore outras categorias