A maioria das manifestações que usualmente designamos por tradições tendem, naturalmente e em poucas décadas, a desaparecer. Com efeito, se analisarmos um pouco algumas destas ditas tradições, percebemos que a maioria são recentes, não estão alicerçadas na história e que poucas terão séculos de tradição.
E é fácil compreender o porquê: a memória coletiva é a principal fonte de salvaguarda das tradições e das artes de “saber fazer”, e quando por algum motivo essa memória desvanece e a tradição deixa de passar entre gerações, esse hábito – chamemos-lhe assim – simplesmente desaparece. É por este motivos que tantas vezes ouvimos o discurso do “isto já não é como era” ou do “a nossa juventude já não quer saber”. Na prática, é o desvanecer de pequenos hábitos, decorrentes de algumas décadas de uso. Uma espécie de “modas”. Não tradições.
É, pois, perante este cenário, que o Homem percebeu que teria de criar formas de salvaguarda e proteção de algumas dessas tradições. Das verdadeiras. Das basilares e identitárias de um povo ou de uma região. Caso contrário, poderiam correr sério risco de desaparecer. Foi, pois, com este objetivo, que foi criado em Portugal, em 2009, o chamado Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, na sequência daquilo que a UNESCO tinha já realizado em 2008, com a Convenção de Salvaguarda do Património Cultural Imaterial.
Em Portugal, existem três manifestações inscritas pela UNESCO na lista representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade: o Fado, o Cante Alentejano e o Artesanato de Estremoz. Mas é no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial que podemos conhecer o vasto rol de tradições e manifestações que alicerçam a nossa verdadeira identidade. Esta lista é composta por um total de 56 tradições, tendo a primeira sido aprovada em 2011: a Capeia Arraiana, do Sabugal.
No distrito de Viana do Castelo, existem várias manifestações imateriais inscritas no Inventário Nacional (ou em processo de inscrição): a Festa das Rosas de Vila Franca – a primeira a ser inscrita, em 2021 – a Romaria da Senhora da Peneda, a Feira dos Santos de Cerdal, o Lanço da Cruz e as Feiras Novas de Ponte de Lima. De referir, ainda, a Romaria de S. Bento do Cando, a Vaca das Cordas, as Cardenhas e Pastoreio na Branda de Santo António de Vale de Poldros, o Castrejo de Castro Laboreiro, e, mais recentemente, a Vela Votiva de Santa Marta de Portuzelo, submetida em março de 2025.
A inscrição desta “Manifestação Artística” – a Vela Votiva – foi proposta pela Junta de Freguesia de Santa Marta de Portuzelo, encontrando-se neste momento em fase de avaliação e “aperfeiçoamento” da candidatura.
Mas a última notícia relativa ao Património Imaterial do Alto Minho, diz respeito à classificação do “Combate da Coca”, proposta pelo Município de Monção. Usualmente designada como a “Festa da Coca”, esta tradição leva mais de 500 anos, celebrando, no dia do Corpo de Deus, o triunfo do Bem sobre o Mal, num combate encenado entre São Jorge e a Coca, um dragão mitológico que representa o Mal.
Não tenho dúvidas que qualquer uma destas manifestações que ainda estão em avaliação acabarão por ser inscritas no Inventário Nacional. Gozarão de proteção, serão valorizadas e permitirão também às regiões usufruir de uma projeção cultural e turística que, de outra forma, ficaria sempre muito mais limitada. Resumindo: é o registo, estudo e projeção que ajudarão a garantir a salvaguarda deste nosso Património Imaterial, garantindo a sua transmissão futura e promovendo o seu conhecimento. Entretanto, deixamos já encontro marcado para Monção, em junho, para celebrarmos mais um ano de tradição da Festa da Coca!
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