Nem dois mil quilómetros separam o Alto Minho da seleção

Soajo e Lindoso são duas das vilas que compõem o Parque-Peneda Gerês. São muito procuradas por turistas, mas o Notícias de Viana foi até lá para saber, em dia de jogo da seleção nacional para o Europeu, como a população vive estas competições.

Micaela Barbosa
1 Jul. 2024 4 mins

A caminho do centro do Soajo, encontramos um café. As portas estavam fechadas, porque é o dia de folga semanal. Ainda assim, havia um aviso na porta: “Especial abertura Euro: Amanhã, dia 01 de julho, o Covil abrirá a partir das 17h para os jogos França x Bélgica e Portugal x Eslovénia”. Não encontramos o responsável do espaço, mas a sua mãe, Maria, de 85 anos, contou que o filho projeta os jogos. “Normalmente, temos mais movimento nos dias de jogo, principalmente, quando são transmitidos em canais fechados. Quando dá na RTP, as pessoas costumam ficar em casa”, referiu, frisando que “as pessoas gostam de ver futebol”.

Outro senhor, que estava vestido com uma t-shirt da seleção, confirmou. “O espírito que se vive aqui é igual como em qualquer lado”, afirmou, contando que se junta com os vizinhos e amigos para ver o futebol. “Muitos são doentes. Nem comem como deve de ser para ver a bola”, brincou, admitindo que até se zangam. “Conhecemos as equipas desde os jogadores aos treinadores”, especificou.

Ao seu lado, estava uma senhora. Riu-se várias vezes durante a conversa e confidenciou que o marido não perde um jogo. “Quando se juntam todos no café para ver o futebol, é uma borga”, atirou. 

Contudo, encontramos um senhor que, diz, já ter sido mais apreciador de futebol do que é agora. “Antigamente, o futebol era mais amador. Hoje, há muitos interesses envolvidos e, por isso, não sou ferrenho. Ainda assim, sempre que posso, vejo os jogos da seleção e quero sempre que ganhe”, salientou, dando nota que, quando não vê, fica atento às notícias para ver o resumo. 

Já em Lindoso, o espírito é idêntico. “Gostamos muito de ver futebol. Vamos para o café e acabamos por conviver uns com os outros”, sublinharam dois amigos.

“Eu gosto muito de cá viver”

Nestas duas vilas, todos tem consciência de que “as coisas mudaram”. Talvez tudo, menos se conhecerem uns aos outros e estarem disponíveis para se ajudarem.

“Muito embora o forte ainda seja o campo, as pessoas já não vivem só disso”, contou um dos moradores, sublinhando que as pessoas que visitam aquelas vilas “gostam muito” e dizem que é “muito bonito”. “Quem vive aqui são maioritariamente pessoas idosas. A maior parte da geração mais nova imigra”, disse outro. Ainda assim, encontramos um senhor que regressou do estrangeiro para tomar conta dos pais. “Isto está muito diferente, mas não deixa de ser um lugar especial”, salientou.

O Notícias de Viana conversou, também com dois comerciantes. “Há uns dias fáceis e outros difíceis, mas estamos numa zona com muita população, que nos procura. Ou seja, conseguimos ter movimento”, disse.

Um dos comerciantes contou ainda que decidiu viver para o Soajo por influência do pai. No entanto, “não o trocava por nada” e não se via a viver noutro lugar. “Quem vem viver para aqui, sabe para o que é que vem. Eu gosto muito de cá viver. Abri o negócio há mais de 20 anos e faço a minha vida”, referiu, felicitando o facto da vila ainda ter escola primária, muito embora sejam “quase 30 crianças”. “É muito bom ter a escola perto. Quando se vai para o ciclo, vai-se para os Arcos de Valdevez e, felizmente, a Câmara Municipal disponibiliza o transporte”, reforçou.

Já no que diz respeito aos serviços mais centrais, as pessoas reconhecem que têm acesso ao “essencial”. Há correio, mercearias, talho, padaria, cafés, pré-farmácia e multibanco. “Temos um médico e um enfermeiro que vêm duas a três vezes por semana para consultas e ainda temos uma equipa de profissionais que vêm fazer análises”, especificou uma moradora, lamentando a falta de transportes. “Para nos deslocar, ou temos transporte pessoal ou vamos à boleia com os vizinhos. As camionetes são duas e nem sempre há todos os dias”, acrescentou.

No Soajo, encontramos também o presidente da Casa do Povo. Esteve emigrado nos Estados Unidos e, quando voltou, assumiu a organização. “Estou há 18 anos à frente da Casa do Povo. Já não temos o mesmo número de sócios, mas conseguimos organizar um conjunto de iniciativas que visam fomentar o convívio”, destacou, reconhecendo a importância da organização na vida das pessoas. “Se não fazemos nada, as pessoas acabam por ficar em casa e, por isso, celebramos datas como o São João e São Martinho”, disse. 

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