Morte hospitalar gera polémica. Afinal, como funciona o sistema de triagem?

Em 2023, os dados disponíveis no Portal de Dados Abertos da Administração Pública mostram que a Unidade Local do Alto Minho (ULSAM) atendeu, em Urgência Hospitalar por Triagem de Manchester, 15.818 pessoas com pulseira branca, 6.239 com pulseira azul, 459.542 com pulseira verde, 521.104 com pulseira amarela, 96.264 com pulseira laranja e  3.211 com pulseira vermelha.

Micaela Barbosa
9 Jul. 2024 6 mins

No dia 17 de maio deste ano, um homem de 57 anos morreu na urgência do Hospital de Santa Luzia, cerca de sete horas depois de lhe ter sido atribuída pulseira verde na triagem, para situações menos urgentes, que podem aguardar por atendimento durante um período de 120 minutos.

Em consequência, a ULSAM instaurou um processo de inquérito, que foi arquivado por proposta do instrutor que concluiu não ter ficado indiciado que o atendimento “mereça qualquer censura”. “O instrutor do processo de inquérito concluiu que, feita a análise crítica de todos os elementos recolhidos não ficou indiciado que o atendimento e acompanhamento do utente (…) no dia 17 de maio de 2024 mereça qualquer censura por parte de qualquer profissional hospital de Santa Luzia, em Viana do Castelo”, refere a nota emitida pela ULSAM.

De acordo com o relatório do processo de inquérito, instaurado no dia 21 e concluído a 27 de maio, o instrutor “propôs o arquivamento dos autos, o que foi aceite e homologado pelo Conselho de Administração da ULSAM”. “Assim, entende o Conselho de Administração da ULSAM, sem prejuízo do que possa resultar do processo judicial que corre os seus termos, que o atendimento do utente no serviço de urgência no Hospital de Santa Luzia, no passado dia 17 de maio, que infelizmente faleceu, situação que se lamenta, terá decorrido de acordo com as boas práticas clínicas e as regras das ‘legis’ ‘artis’ aplicáveis”, acrescenta a nota.

O Protocolo de Triagem de Manchester, segundo o Grupo Português de Triagem, foi implementado em novembro de 1994, em Manchester, com o objetivo de “estabelecer um consenso entre médicos e enfermeiros do Serviço de Urgência, com vista à criação de normas de triagem baseadas na determinação do risco clínico”. Em Portugal, este sistema é aplicado em todos os Serviços de Urgência do país desde o ano de 2000, e está acreditado pelo Ministério da Saúde, pela Ordem dos Médicos e pela Ordem dos Enfermeiros.

Este sistema pode ser realizado tanto por médicos como por enfermeiros. No entanto, a sua grande maioria, é feita por enfermeiros que não fornecem um diagnóstico, mas “uma prioridade clínica baseada na identificação de problemas”.

Desde a pandemia, os serviços de urgência têm estado “cheios e sob pressão”. Em 2022, o bastonário da Ordem dos Médicos explicou, em entrevista à SIC Notícias, que havia dois fatores: “os doentes crónicos que perderam as suas consultas devido à pandemia ou que ainda não foram diagnosticados e, por isso, estão a recorrer às urgências com complicações” e o “desconhecimento, por parte dos utentes, sobre quando se deve recorrer às urgências”.

Miguel Guimarães lamentou que cerca de 40% dos doentes, que recorrem às urgências, “não tem verdadeira urgência e acaba por empatar”.

Já o ano 2023 ficou marcado pela falta de médicos e enfermeiros, que começou com encerramentos de blocos de partos, continuou com greves e acabou com limitações nas urgências, obrigando os doentes a deslocar-se dezenas de quilómetros.

Aliado a esta realidade, resulta o atraso, que pode ser relevante, no atendimento e observação dos utentes que necessitam de cuidados imediatos. Neste sentido, o Sistema de Triagem de Manchester (STM) é uma ferramenta na abordagem e gestão desta situação em que o número de utentes excede, em largos períodos, a capacidade de resposta dos serviços.

Na triagem, o profissional de saúde identifica o nível de gravidade em cada caso e, com base na avaliação, define-se a ordem de atendimento para garantir que as emergências sejam recebidas primeiro.

Como explica o Grupo Português de Triagem, foi elaborada uma lista de 50 fluxogramas baseados nas queixas de apresentação, que abrangem todas as situações apresentadas nos serviços de urgência. Dois fluxogramas foram desenvolvidos para lidar com uma situação de catástrofe. “A primeira parte do método de triagem requer que o profissional selecione o fluxograma que seja o mais específico possível em relação à queixa apresentada. Depois percorre os discriminadores do fluxograma, escolhendo o primeiro que seja positivo ou que não se consiga negar”, refere, sublinhando que “a conceção rigorosa garante que os fluxogramas têm informação cruzada entre si, uma vez que um determinado número de queixas de apresentação pode conduzir a mais do que um fluxograma, não permitindo nunca a atribuição de uma prioridade clínica inferior para a mesma queixa”. “A escolha do fluxograma de apresentação é, em grande medida, ditada pela queixa de apresentação do doente; é necessário, em seguida, proceder à recolha e análise de informações que permitam a determinação da prioridade clínica”, acrescenta, especificando: “O fluxograma estrutura este processo, mostrando discriminadores-chave (perguntas) em cada nível de prioridade – a avaliação é feita a partir da prioridade clínica mais elevada. Os discriminadores são deliberadamente colocados na forma de perguntas, para facilitar o processo.”

O sistema de classificação de risco divide-se por cores, que definem o nível de prioridade de atendimento de acordo com a gravidade dos casos. São cinco: vermelho (0 minutos de espera e necessitam de atendimento imediato), laranja (10 minutos de espera e necessitam de atendimento praticamente imediato), amarelo (60 minutos de espera e necessitam de atendimento praticamente rápido, mas podem aguardar), verde (120 minutos de espera e podem aguardar atendimento ou serem encaminhados para outros serviços de saúde) e azul (240 minutos e podem aguardar atendimento ou serem encaminhados para outros serviços de saúde). “É importante que a avaliação do doente seja sistemática, e que todos os elementos dessa avaliação sejam reunidos para dar uma imagem completa da situação clínica do doente. Por esta razão, o profissional de triagem deve ter experiência suficiente de cuidados de urgência, pelo menos seis meses, e capacidade para comunicar eficazmente com os doentes e as suas famílias”, defende o Grupo Português de Triagem, frisando: “Seguindo este processo sistemático, facilitado pela metodologia de triagem, a análise do doente pode ser executada rapidamente e com segurança, para se atribuir uma prioridade clínica apropriada a guiar a tomada de decisão.”

Para otimizar o fluxo de pacientes no serviço de urgência, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) ainda recomenda ligar para o SNS 24 (808 24 24 24) para “evitar filas e esperas desnecessárias”, disponibilizando uma triagem e encaminhamento personalizado via telefone.

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