Hugo Soares: “Nunca pedirei desculpa por uma piada”

O humorista vianense Hugo Soares, que ficou conhecido por propor a sua cadela Jéssica à Câmara Municipal de Viana do Castelo nas eleições autárquicas de 2021, foi recentemente acusado, após várias queixas de famílias brasileiras, de "incentivar ao ódio", depois de uma piada sobre o "defeito" das pessoas com síndrome de Down. Consequentemente, ficou sem conta do Instagram, a sua principal ferramenta de contacto com o público, perdendo os 18.000 seguidores. “O humor não tem limites. Se um humorista se limitar, não há comédia”, afirmou, frisando que faria novamente a piada. “Nunca pedirei desculpa por uma piada a não ser, se acontecer, fazer uma má construção de uma piada. Ou seja, que o meu trabalho seja mal feito, que não é o caso”, assegurou, apontando que “há um grupo de pessoas que tem falta de atenção” e é por isso que pega “no que está mal” para “mostrar-se o quão bom é”. “É só uma questão de ego. Estas pessoas, que têm muita voz, não se movem contra a piada ou contra o comediante, mas a favor delas próprias, para mostrar que são boas pessoas. As ‘más pessoas’ são aquelas que fazem ameaças e se juntam para denunciar uma página. Ou seja, para fazer mal, as pessoas juntam-se mais”, reiterou.

Notícias de Viana
2 Jun. 2023 5 mins
Hugo Soares: “Nunca pedirei desculpa por uma piada”

Associar a piada à opinião dos humoristas é, segundo Hugo, “um dos maiores erros”. “Só uma pessoa muito doente é que acha que eu, como pessoa, acho que as pessoas com trissomia 21 têm defeito. Quando digo que as pessoas com trissomia 21 têm defeito, é uma construção absurda. Sou eu a pôr-me no papel de pessoas absurdas, que dizem isso. É disso que as pessoas se riem, porque elas sabem que eu estou ali a fazer um papel. É a minha persona”, defendeu, acrescentando que quem não pensa assim “põe a responsabilidade de apontar o dedo às coisas nos comediantes”. “A nossa função é fazer rir e, portanto, temos de fazer de tudo para que isso aconteça”, salientou, confidenciando que o seu humor visa “celebrar as desgraças”, brincando e tornando alegre o que é, em teoria, mau.

Já sobre as práticas morais ou o “politicamente correto”, o humorista de 36 anos defendeu que “não se pode discutir com essas pessoas”. “Não se pode discutir com uma pessoa que se chama Diogo Faro, que se autointitula comediante e depois, está a cancelar outros comediantes e a forçar outras pessoas a cancelarem-nos. Essas pessoas são absurdas”, atirou, exemplificando: “É o mesmo que um médico tentar cancelar outro porque não concorda com a maneira como ele operou aquela pessoa. Aquela pessoa foi salva por aquele médico, mas, como ele tinha outro método, quer cancelá-lo. Isto não faz sentido nenhum.”

Hugo vai mais longe, referindo ainda que “é uma questão política”. “Nunca vais ver esse grupo de pessoas a atacar pessoas de esquerda. Como um comediante brasileiro diz, ‘o politicamente correto é esquerdistamente correto’. Ou seja, as pessoas do politicamente correto só estão preocupadas com as piadas que têm como alvo a esquerda. Os comediantes politicamente corretos atacam sempre a direita, fazendo piadas com a direita”, apontou, exemplificando: “Tu vês esses comediantes a fazerem piadas tendo como alvo a Igreja. Portanto, tudo que seja da Igreja eles já podem gozar, mas, se eu quiser gozar com alguma coisa de esquerda, não posso.”

É segurança privado de profissão e é, por muitos, considerado “o gajo mais simpático do mundo”. “A minha entrada em palco é uma postura muito séria, e digo as coisas de maneira muito séria. Parece que vou sempre bater em alguém, ao contrário do que acontecia, por exemplo, nas discotecas. Nunca recorri à violência a não ser por defesa, mas, na maior parte das vezes, era, assumidamente, o segurança que gosta de falar com pessoas e dizer piadas quando elas entravam”, contou.

Para além de humorista e segurança, é, ainda, artista plástico. Estudou Belas Artes e, passados cinco anos sem grandes trabalhos nesta área, foi desafiado por um amigo a regressar. “A arte tem o poder de juntar as pessoas em todas as áreas, e é por isso que gosto de Portugal. Aqui, isso é possível. As pessoas são boas e gostam de rir. Têm interesse em saber o que as outras fazem e propõem”, afirmou, admitindo que “o reconhecimento é à escala”.

No início de carreira, fez centenas de quilómetros para atuar cinco minutos em espetáculos de stand up. Embora não fizesse parte dos seus planos, aceitou um convite de um amigo e subiu ao palco para contar umas piadas e, sobretudo, “fazer rir as pessoas”. “Disse-lhe que não, porque fico nervoso ao ver o público, mas é das melhores coisas que faço. Gosto imenso de fazer, ainda que me sinta sempre nervoso antes de entrar em palco. Apetece-me sempre vir embora, mas, depois de entrar em palco, é tranquilo”, disse, entre risos. Em Viana do Castelo, o stand up ainda não é uma prática corrente porque, segundo Hugo, “faltam mais dois ou mais três humoristas”. “Já tentei criar um núcleo, mas sozinho não consigo. Stand up exige, em primeiro lugar, fazer público e, depois, bares que estejam disponíveis para me receber e a outros comediantes, que, mesmo que venham de graça, precisam que lhes paguem as viagens”, explicou, aceitando a realidade e mostrando o seu “orgulho” em ser do norte ou melhor, como se referiu, do “Portugal real”. “Sou de Viana e, quanto mais estou com pessoas de Lisboa e das grandes cidades, mais me orgulho de ser real. Há um cheirinho de elitismo nas grandes cidades, que mete nojo. Nós somos parolos, e eu lido com isso com orgulho. Eu gosto de ser parolo. Eu gosto de ir à casa dos meus tios ou dos meus avós comer presunto. Gosto de javardice. Lamento que vocês (das grandes cidades) não tenham isso”, frisou, admitindo que “bebeu tudo” com os outros comediantes com quem já trabalhou e se cruzou, mas também ensinou. “São experiências enriquecedoras, em que também te apercebes que o que te acontece a ti, como, por exemplo, um bêbado te estragar o espetáculo, já aconteceu aos grandes”, disse.

Em Destaque

Notícias atuais e relevantes que definem a atualidade e a nossa sociedade.

Opinião

Espaço de opinião para reflexões e debates que exploram análises e pontos de vista variados.

Explore outras categorias