Amorosa, o lugar “abandonado” que quer ter mais “brio”

Amorosa é um lugar que pertence à freguesia de Chafé, em Viana do Castelo. É conhecida pela praia, que chama famílias inteiras, oriundas um pouco de toda a região Norte, que possuem segunda residência ou alugam casas para desfrutar das suas férias. E é ainda muito procurada e apreciada pelos praticantes de surf e bodyboard.

Micaela Barbosa
28 Jun. 2024 10 mins

Nos passadiços, é comum ver-se muitas pessoas a caminhar. Na praia, os banhos de sol. Na água, os desportos e os banhos para se refrescar. E, nas rochas, uma particularidade da praia, aproveitar as piscinas que se formam e explorar lapas, mexilhões, caramujos, caranguejos, pequenos peixes e estrelas-do-mar, que lá habitam.

Nas recentes eleições legislativas, o Chega obteve 25,87% (2º lugar) dos votos na freguesia de Chafé. A AD venceu as eleições, ultrapassando o PS, que venceu em 2022. “O Chega só tem motivos para crescer porque as pessoas, de todo o país, estão descontentes e cansadas com os partidos ditos tradicionais. A justiça não funciona, não há apoios para nada e não temos quem nos defenda”, justificou um morador de Amorosa.

Neste lugar, algumas pessoas com quem o Notícias de Viana conversou estão “descontentes” e sentem que o lugar está “esquecido” e “abandonado” pelo poder local. “Nos últimos anos, foram feitos os acessos ao porto-de-mar, foi colocado um piso novo e feitas algumas marcações de estacionamento”, reconheceu uma, apontando que “há sinais de trânsito partidos que não vieram substituir, os passeios estão velhos e os jardins não têm água”. “A Amorosa paga milhares de euros de IMI à Câmara Municipal de Viana do Castelo e ela não investe aqui”, atirou, defendendo que “deveria haver uma comissão na Junta de Freguesia para defender a Amorosa”. “Não tenho nada contra ninguém. É verdade que a maior parte das pessoas não vota aqui, mas ninguém (poder local) quer saber disto para nada”, reforçou.

O ano passado a revista Evasões fez uma reportagem sobre a praia de Amorosa e, num dos comentários, há também quem critique o Município. “A Câmara Municipal de Viana do Castelo não investe um cêntimo. Passeios velhos e esburacados e passadeiras, nem vê-las. Se esta localidade pertencesse ao concelho de Braga, seria uma joia aprimorada. Como não há votantes, Viana não se interessa por ela”, lê-se. Ainda assim, o descontentamento não fica por aqui.

 

“Amorosa é um dormitório”

São 9h00 da manhã. Na paragem de autocarro, vê-se jovens à espera do segundo transporte do dia para a cidade. Ao todo, semanalmente, são cinco: 7h40, 9h00, 12h55, 14h25 e 18h00.

Na rua, vê-se algumas pessoas a passear os seus animais. São muitos carros já estacionados, e outros a chegar para a aula de natação no Amorosa Health Club. Nos restaurantes e cafés, o movimento ainda é pouco, mas, junto à praia, vê-se muitas pessoas a caminhar. E, alguns deles, de mochilas às costas. São peregrinos estrangeiros.

Num dos bancos pelo passadiço, estava um senhor de 82 anos a apanhar sol. Há mais de 20 anos que se desloca de Barcelos até Amorosa para ver a praia, caminhar, descansar e almoçar com os amigos. “Não trocava o Minho por nada”, disse sem hesitação, confidenciando que adora o sol. “Isto tem crescido demais. Já não é o que era”, considerou, especificando: “Há uns dez anos atrás era uma zona balnear. Hoje, é um dormitório. Aumento de imigrantes. No inverno, havia meia dúzia de gatos pingados. Hoje, está sempre cheio de carros.”

O morador, com mais de 60 anos, corrobora esta opinião, reforçando que “Amorosa é um dormitório” devido ao aumento de imigrantes, sobretudo, brasileiros. “Estamos muito perto da cidade e, por isso, não há melhor lugar que este”, sublinhou.

De regresso ao senhor de 82 anos, justificou o “dormitório” pelo facto de aquela zona estar perto da Zona Industrial de Neiva, onde “grande parte” trabalha. “Já no verão, além dos residentes e da malta da beira, há muita movimentação”, acrescentou.

Mais à frente, encontramos um comerciante. Não vive em Amorosa, mas numa das freguesias vizinhas. Reconhece que “há muito comércio” e “muitas pessoas a morar” ali. “Amorosa é muito cosmopolita”, defendeu, considerando que, ao contrário do senhor de 82 anos, aquele lugar “já não é dormitório” porque “as pessoas vivem permanentemente aqui”. “Não há casas para alugar”, disse, contando que, algumas delas, são casas de verão. “O maior movimento é em julho e agosto. Ainda assim, no inverno, também há muito mais movimento do que há uns anos atrás”, salientou, exemplificando que, ao Domingo de manhã não tem lugar para estacionar o carro. No entanto, lamenta que “Amorosa esteja abandonada” porque, na sua opinião, “Amorosa tem de brilhar”. “Os passeios são uma lástima. No verão, muitas pessoas caem. Ninguém repara nada”, atirou, argumentando: “Recebemos aqui muita gente. Havia de haver mais brio para receber as pessoas.”

O comerciante referiu, ainda, que “a Câmara Municipal investe zero” em Amorosa. “Os jardins são outro exemplo. Há um funcionário que faz algum trabalho, mas não é suficiente porque a área é grande. Recentemente, um carro da Câmara Municipal esteve aqui, mas deviam vir mais vezes porque acaba tudo por secar. Fica feio”, acrescentou, frisando: “Vem muita gente aqui deixar o seu dinheiro. Devíamos saber recebê-los.”

Como em todo lado, conta que ter uma porta aberta “não está fácil para ninguém”. Ainda assim, defende que “devia haver mais respeito”.

Já numa das esplanadas de um café, encontramos alguns amigos. Um dos senhores tem 84 anos e foi quem construiu a primeira vivenda naquela zona. “Vim para aqui teso, e fiquei ainda mais”, ironizou, entre risos.

Os outros três são moradores, sendo que um vive em Espanha, mas tem casa em Amorosa. “Isto mudou para melhor. Foi só fazer prédios enquanto precisavam, e mais nada”, disseram, contando que “os serviços centrais” estão em Chafé. “Os transportes são uma desgraça porque, ao fim-de-semana, não há. Durante a semana, são poucos”, lamentaram, considerando que “Amorosa está para os velhotes” e “para se descansar”. “Amorosa já teve mais movimento. Havia salão de jogos e salão de festas. Fechou tudo. Os cafés tinham movimento até de madrugada e, hoje, não”, exemplificou.

O morador com quem o Notícias de Viana conversou inicialmente, também criticou a falta de transportes. “Não há transportes. Precisamos de automóvel próprio ou então, usamos a trotinete, que está muito na moda”, referiu.

No que diz respeito aos serviços, o morador é de opinião de que seriam “muito importantes” para dinamizar mais aquela zona. “Neste momento, temos uma delegação dos CTT, um minimercado, restaurantes, cafés e pastelarias, cabeleireiras e uma caixa de multibanco”, enumerou, frisando que, ainda assim, “não tem havido muito desenvolvimento”. “Há lojas que ainda estão por ocupar. Se o poder local tivesse outro cuidado, poderiam não estar”, justificou, contando: “Cheguei a falar com um presidente de Junta para se fazer um estudo geográfico, colocando sentidos anúncios, aumentar os passeios e criar mais postos de estacionamento para melhorar a circulação”.

Uma das outras curiosidades, segundo o morador, é o aumento do número de insetos, “sobretudo, moscas e insetos”. “Há aqui muitos jardins que poderiam ser aproveitados para parques de estacionamento”, sugeriu, queixando-se ainda da falta de higiene das pessoas que têm animais de estimação e que não apanham os seus dejetos.

 

“Chafé tem mais de 3.600 eleitores, mas de população tem mais de 5.000”

António Lima, que está no último mandato como presidente da Junta de Freguesia de Chafé, relembrou que está a ser finalizado o projeto de reabilitação naquela zona, desde melhoria de estradas, ruas, passeios, arborização, colocação de saneamento e água, e etc. “O projeto está na 4ª fase de execução. Espero que ainda este verão consigam finalizar, mas também sei que os responsáveis têm muito trabalho”, referiu, concordando com a execução do projeto. “Fazemos as coisas aos bocados, mas fazemos”, sublinhou. Ainda assim, reconhece que “há muita coisa que precisa de ser feita”. “As Juntas de Freguesia não são totalmente autónomas. Aliado a isto, há falta de recursos humanos e os apoios que nos chegam, não são suficientes. Chafé cresceu em população, mas não temos os dados desse mesmo crescimento”, justificou, reforçando: “Não temos controle. As pessoas são recenseadas automaticamente. Antes, vinham para a freguesia, instalavam-se e dirigiam-se à Junta. Hoje, não. Está tudo num sistema. Sabemos que temos mais eleitores, mas não sabemos onde estão.”

Esta realidade é também uma das razões apontadas pelo autarca que justificam os resultados das recentes eleições legislativas. “Chafé é uma freguesia menos rural do que era. Hoje, ninguém vive do campo. E, portanto, acabam por sair. Isto é uma realidade no concelho. Não são criadas estruturas para que as pessoas se fixem”, considerou, acrescentando: “Um casal que vive junto e trabalha, tem de dar um dos seus vencimentos para a renda da casa. Isto cria uma revolta nas pessoas. Os ordenados são baixos e as rendas são altas.”

Uma das outras razões é que “há mais jovens a votar”. “Um dia é recenseado, e outro dia é eleitor. E, nós não sabemos de onde vêm”, salientou, atirando: “Chafé tem mais de 3.600 eleitores, mas de população tem mais de 5.000. Não tenho dúvidas nenhumas.”

Já sobre a realidade ali vivida, António Lima lamenta “a falta de transportes, de um supermercado e de uma escola primária”. “Muita gente queixa-se que o minimercado não é suficiente. A escola não está em funcionamento desde 2013, porque não tínhamos mais crianças. Hoje, transportamos 31 alunos para a escola em Chafé. É a Junta de Freguesia que faz esse transporte”, exemplificou, confidenciando que tem insistido num Espaço de Cidadão para Amorosa porque “a maior parte da população mora naquela zona”. “Era mais um serviço para conseguirmos contabilizar”, argumentou, revelando que estão a estudar a possibilidade de, “duas vezes por semana”, colocar um funcionário da Junta de Freguesia na escola para atendimento à população. “Amorosa tem muita coisa. Tem potencial. No entanto, também lhe falta algum ambiente noturno, como uma discoteca”, acrescentou.

Sem esquecer a praia “maravilhosa”, o autarca salientou que, no verão, “a maior parte das escolas vão para Amorosa”. “Recentemente, dividiram-na como Amorosa norte e Amorosa sul. Amorosa sul é uma praia de excelência, mas falta-lhe os acessos”, atirou.

António Lima lembrou ainda que, no verão, reforça com os meios da Junta de Freguesia para fazer alguns trabalhos em Amorosa, desde cortar os jardins a apanhar o lixo. “Os Serviços Municipalizados também dizem que não têm recursos humanos. E acredito, porque, cada vez mais, isto está pior”, apontou, afirmando que podia elencar as contas. “A Junta de Freguesia não recebe, por ano, 80 mil euros. Isto, de receitas próprias. Não recebe. E, se recebesse, para o que é que dá? É quase para os vencimentos das pessoas que trabalham connosco. Temos quatro funcionários”, explicou, destacando ainda o crescimento de imigrantes. “A Câmara Municipal ajuda, mas não é suficiente para o crescimento que Chafé teve. Nós crescemos 21,5% nos censos de 2021. Isto, em termos de população. O que não é acompanhado, porque os imigrantes, desde brasileiros, argentinos, angolanos, paquistaneses, indianos e etc., não se podem recensear”, apontou, garantindo que há conhecimento quando pedem documentação, mas é “volátil”. Eles não ficam muito tempo, porque encontram melhores oportunidades noutros sítios. Não se fixam e, portanto, acabamos por não conseguir contabilizar”, terminou.

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