“Viana à Mesa”: uma viagem pela memória gastronómica de Viana do Castelo entre 1920 e 1970

Muito além da mera necessidade de nutrição, a alimentação tem acompanhado a história da humanidade, refletindo os comportamentos, os hábitos e as transformações sociais de cada época. O que se come, a forma como se come e os espaços escolhidos para o fazer revelam muito mais do que simples preferências alimentares, permitindo compreender diferentes modos de vida, relações sociais e mudanças culturais.

Catarina Faria
6 Out. 2026 4 mins

Também os restaurantes, cafés, mercados e outros espaços ligados à alimentação assumem um papel importante nesta memória coletiva, enquanto lugares de encontro, convívio e partilha por onde passaram gerações de pessoas. Preservar esta memória é, por isso, preservar, também, uma parte da identidade e da história de uma comunidade.

Foi a partir desta perspetiva que o Núcleo de Viana do Castelo da Ephemera – Biblioteca e Arquivo de José Pacheco Pereira desenvolveu uma recolha de informação sobre a alimentação na região, entre as décadas de 1920 e 1970. A iniciativa procura recuperar não apenas receitas e hábitos alimentares, mas também os espaços, os objetos e as histórias que marcaram a relação dos vianenses com a alimentação ao longo do século XX.

Segundo a Ephemera, “a comida, coisa EPHEMERA, foi tornada permanente na sociedade, pela cultura, fundada nos hábitos e na forma de pensar”, salientando que “o prato à nossa frente carrega milhares de anos de evolução, simbolismo e história”. Entre os pontos de partida da investigação esteve, ainda, a ideia de que “ao longo dos séculos, o que comemos, como cozinhamos e como comemos passou a definir a nossa classe social, o nosso género, a nossa religião e a nossa identidade nacional e mesmo regional”.

A ideia para a exposição “Viana à Mesa 1920-1970”, patente nos Antigos Paços do Concelho, surgiu a partir da doação do espólio do tenente-coronel Tristão Bacelar, feita pela filha, Margarida Bacelar. Também governador civil, Tristão Bacelar deixou um conjunto de documentos que permitiu recuperar diferentes aspetos da vida social de Viana do Castelo, nomeadamente fotografias, discursos e ementas associadas a inaugurações e outros acontecimentos realizados na cidade, sobretudo durante os anos 1960.

Segundo Isabel Campos, membro do Núcleo de Viana do Castelo e uma das responsáveis pela organização da exposição, “foi a partir desse espólio que se teve a ideia desta exposição que finalmente foi feita”.

Entre os materiais encontrados destacam-se as ementas, que permitem conhecer não só os alimentos e pratos servidos, mas, também, os espaços de sociabilidade da época. “Quando se inaugurava, por exemplo, os Correios ou a luz, nos anos sessenta, faz parte do espólio a fotografia, o discurso e a ementa, que era ou da Brasileira ou da Paris, de um lanche”, explicou Isabel Campos.

A investigação foi, entretanto, além deste espólio, recorrendo também a jornais, arquivos, bibliotecas e coleções particulares. A exposição reúne, assim, diferentes vestígios de uma época, permitindo olhar para a alimentação como uma porta de entrada para compreender a vida quotidiana da cidade.

Para Isabel Campos, a preservação destes materiais é essencial, sobretudo porque muitos deles poderiam facilmente ter sido descartados. “Tudo o que aqui está é precisamente para que se guarde, porque nós conseguimos fazer grandes coisas com aquilo que as pessoas guardam, em vez de deitar ao lixo”, afirmou.

Também, José Pacheco Pereira, fundador da Ephemera, destacou a dimensão coletiva desta memória: “Não só há receitas que são características de uma determinada terra, como toda a panóplia de restaurantes, casas de pasto e cafés são igualmente aquilo por onde passaram dezenas, senão centenas de milhares de pessoas”.

Para o fundador da Ephemera, é precisamente essa dimensão que atribui relevância à exposição, porque a “exposição não é apenas interessante pelos objetos que estão ali colocados na parede e até essas coisas, como a dentadura, mas há mais alguma coisa, com os nomes dos doces que eu nunca ouvi falar e está-se sempre a aprender”, destacou.

A importância da exposição enquanto elemento de preservação da memória coletiva foi, também, sublinhada pelo vereador da Educação, Ciência e Conhecimento e Cultura, Manuel Vitorino: “A partir da gastronomia, do comer em Viana, podemos entrar aqui em dimensões culturais muito importantes”.

O autarca considera, aliás, que os elementos reunidos na exposição permitem recuar, ainda, mais na história da cidade, defendendo que “o trigo da Praça da República nos pode levar a tempos mais recuados, ao tempo dos Descobrimentos”.

 

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