Recolher, guardar, estudar, divulgar

Isabel Campos
28 Set. 2026 5 mins
Paisagem

Guardar, acumular, coleccionar sempre foram verbos de muito meu agrado. Tudo seria uma recordação, tudo se poderia aproveitar. Nunca deitei fora uma carta, um postal, um telegrama, um cartão de Boas-Festas. Cá está tudo em caixas a … ocupar espaço, mas é uma felicidade quando lhes pego. E os bilhetes de espectáculos (quando eram bonitos e não um papelucho que sai de uma máquina e se desvanece, rapidamente) e os programas? Guardadíssimos! Cadernos escolares, encapados a pano, um caderno em papel costaneira com recortes de jornais e revistas (scrapbook em estrangeiro), tudo preservado. Os livros trazem marcadores, e há marcadores lindíssimos à venda, que se faz? “Ajuntam-se”. E já vão em milhares de todos os materiais e proveniências. Recordações de viagens, infelizmente começadas tarde, já vão em 26 cadernos. Perguntam-me: Para quê? Uma alegria, uma satisfação uma boa recordação quando os revejo.

Com este “bichinho”, junto com outros também “afectados”, tornámo-nos voluntários do EPHEMERA – Biblioteca Arquivo de José Pacheco Pereira, há 9 anos. Como se pode ler no título, recolhemos, tratamos, inventariamos, guardamos, estudamos. Livros, revistas, documentos, espólios, objectos, materiais de campanhas eleitorais, que iriam para o lixo, foram salvos. Gostamos de andar aos papéis…

Uma vez por ano, expomos materiais recolhidos por nós, por outros, colecções particulares – Não me calo!, Papéis na luta pela Liberdade, Proibido por inconveniente, Viana de outrora, Firmas na tradição vianense (um dos episódios de Ephemera, na TVI, foi cá gravado, tendo como tema esta exposição, com o título Cápsula do tempo) , Aconteceu em Viana e outras.

Assim, chegamos à exposição deste ano VIANA À MESA: 1920-1970. Recolhemos informação nos jornais vianenses, contáctamos amigos, coleccionadores e iremos expor publicidade a restaurantes, cafés, pastelarias, armazenistas, ementas, fotografias, objectos de cozinha e sala, alguns deles desconhecidos de muitos.

Não vamos conseguir mostrar tudo o que encontrámos. Ler jornais é uma verdadeira delícia! O muito que de lá pode ser retirado, estudado, comparado. A Praça da República, com o Café Américo e o Café Bar, não era o quase deserto de hoje. As mercearias, em extinção, tinham um enorme manancial de artigos à venda. Uma delas vendia artigos fotográficos. A publicidade aos talhos, como a de outros estabelecimentos, era já de uma grande criatividade (ver a publicidade ao talho n.º 18 que anunciava  o bom anho de qualidade meirinho do campo, que chegaria de avião, em 1941).

Havia casas de pasto, adegas, restaurantes, tudo da melhor qualidade e esmero. Alguns, muito poucos, sobreviveram.

As pastelarias/confeitarias, salões de chá, ainda com chávenas e chá a sério, primavam, principalmente na Páscoa e Natal, ao publicitar os seus produtos, nos primeiros anos apenas em texto, seguidos de pequenos anúncios e, mais tarde, em trabalhos mais elaborados nos suplementos de A Aurora do Lima, publicados aquando das Festas d´Agonia. Por eles, seguimos a evolução do estabelecimento, os produtos novos que iam aparecendo, o que levava à utilização de estrangeirismos por não haver o equivalente em português (ao contrário de agora). O pão de luxo era o pão bijou e vendia-se queijo de correr (não, não é gralha).  O preço do que seria o cabaz alimentar essencial praticado no mercado municipal era publicado, semanalmente, no Notícias de Viana. O preço da dúzia de ovos flutuava.

As ementas de cerimónias oficiais, casamentos, comunhões, baptizados, homenagens não variavam muito. A lagosta ao natural aparecia com regularidade. Só as ementas dariam um interessantíssimo estudo. As gralhas, ou os acordos/desacordos ortográficos levaram a que numa ementa se servisse como iguaria paisinhos com presunto…

Com tanta variedade, para quem podia, tão apetitosa, não admira que, em 1921, se comprassem dentaduras usadas…

Temos muitas outras histórias para contar nas visitas guiadas dos dia 3 e 17, às 11 horas – as mixordices, os fogões Vacuum, as greves dos talhos, etc., etc.

NÃO DEITE NADA FORA. Nós, EPHEMERA, queremos!

 

Com grande amargura, não posso deixar de referir este anúncio:

OFERECE-SE – Menina de 11 anos para tomar conta de crianças. Prefere-se família católica. Boas informações.

Carta à Redacção com as iniciais I. J. C.

(ver sugestões)

 

NOTA – com grande regozijo verifiquei que os grafitti da estátua em frente à Estação foram removidos, problema exposto na nota de Julho. Assim se evita que mais iluminados tenham ideias de ficar para a posteridade.

 

SUGESTÕES

Ler – Esteiros, Soeiro Pereira Gomes, com a dedicatória:  Para os filhos dos homens que nunca foram meninos, escrevi este livro

 

Ver – Exposição VIANA À MESA: 1920-1970, nos Antigos Paços do Concelho, de 2 a 31 de Outubro. Inauguração no dia 2, às 18 horas, com a presença de José Pacheco Pereira.

Visitas guiadas nos sábados, dias 3 e 17, às 11 horas.

 

 

(Escrito de acordo com a ortografia antiga)

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