Numa paróquia marcada pelo ritmo diário de uma zona industrial onde trabalham milhares de pessoas, muitas delas estrangeiras, a celebração da Quinta-Feira Santa ganhou, este ano, um significado particular em São Romão de Neiva (Viana do Castelo). O gesto do lava-pés, um dos momentos centrais da Missa da Ceia do Senhor, foi vivido com doze imigrantes, refletindo a realidade social que hoje molda a comunidade.
A escolha partiu do crescimento visível da presença de trabalhadores migrantes no território paroquial. “Cada vez mais, entre essas milhares de pessoas que ali trabalham estão muitos imigrantes, vários dos quais habitam no espaço da paróquia”, explicou o pároco, Pe. Renato Oliveira, sublinhando que alguns participam regularmente na vida litúrgica, enquanto outros permanecem mais afastados.
Ao convidá-los para o rito, que evoca o gesto de Jesus Cristo na Última Ceia, a paróquia procurou, antes de mais, afirmar uma mensagem de acolhimento. “A Igreja não é apenas o edifício, mas sobretudo uma comunidade de ‘pedras vivas’, e essa comunidade está também para eles, quer recebê-los e abrir-lhes as portas”, afirmou.
Mas a iniciativa teve igualmente como destinatário a própria comunidade paroquial. Mais do que um gesto simbólico, o pároco quis provocar reflexão. “Temos aqui estas pessoas, estes imigrantes, eles existem. Importa saber quem são e pensar como podemos fazê-los sentir integrados”, disse, apontando para a necessidade de uma resposta concreta num contexto em que muitos enfrentam rejeição social.
Os doze participantes, provenientes de países como Indonésia, Brasil, Angola e França, tornam visível uma diversidade que já faz parte do quotidiano local, mesmo numa paróquia de pequena dimensão.
Para Renato Oliveira, o gesto pretendeu recordar que “não há irmãos de primeira nem de segunda”, reforçando a ideia de pertença comum.
A mensagem central, porém, vai além da celebração de um dia. O pároco insiste que o valor do lava-pés não se esgota no simbolismo litúrgico, mas deve traduzir-se numa atitude contínua. Num tempo em que muitos migrantes vivem longe das famílias e das suas referências, a Igreja é chamada, defende, a assumir-se como espaço de acolhimento efetivo.
Em linha com o apelo diocesano para uma comunidade “de todos e para todos”, o gesto procurou “transformar a proximidade ocasional em integração real”.
Notícias atuais e relevantes que definem a atualidade e a nossa sociedade.
Espaço de opinião para reflexões e debates que exploram análises e pontos de vista variados.