No mês em que o Papa Leão XIV pede que os cristãos que vivem em contextos de guerra sejam “sementes de paz, reconciliação e esperança”, a distância entre a fé e o conflito parece mais curta do que nunca. Longe das zonas destruídas, no Dubai, um dos maiores cruzamentos humanos do Médio Oriente, vive quem carrega diariamente um país ferido no coração. Não há bombas, mas há telefonemas que chegam com medo. Não há escombros, mas há ausência. E há sempre, em segredo ou em público, uma oração.
Phillipe Labaki, libanês a trabalhar no Dubai, sabe bem o que é viver nessa fronteira emocional. “É difícil viver longe da minha família”, admite. “Sou muito ligado a eles. Mas estou aqui com um propósito: apoiá-los financeiramente e construir um futuro melhor. Essa responsabilidade motiva-me todos os dias”, confidencia. O Líbano que deixou está “exausto” económica, social e espiritualmente. E, no entanto, no meio da crise, permanece algo. “Estar longe fortaleceu a minha relação com Deus. Rezo todos os dias”, conta.
Quando fala com a família, há uma expressão que se repete: “Graças a Deus por tudo.” Não é resignação. É sobrevivência emocional. “A fé ajuda-os a manter a paciência e a gratidão, apesar de tudo o que acontece”, explica. No Dubai, Phillipe procurou uma igreja, mas não uma comunidade libanesa. “Vou sempre que posso, não porque me lembre de casa, mas porque acredito. É um lugar de fé, não de identidade”, refere.
A poucos quilómetros dali, também no Dubai, o jornalista vianense José Ribeiro, que vive no emirado há vários anos, observa de perto o mosaico humano que ali se forma. Gente de todo o Médio Oriente chega por motivos diferentes: uns à procura de oportunidades, outros fugidos de conflitos, outros, ainda, empurrados pela necessidade. Mas, seja qual for a origem, diz José, há algo que permanece inalterado. “Quem chega aos Emirados, mesmo vindo de zonas de guerra, consegue manter identidade e esperança. Só quem quiser viver fora da rede não encontra comunidade. Aqui, a pertença forma-se facilmente”, garante.
Para muitos, contudo, a vida no Dubai é vivida com o coração preso a outro lugar. “São dias de angústia”, descreve, acrescentando: “O telemóvel torna-se um refúgio. Procuram acompanhar quem ficou para trás.”
As histórias mais traumáticas raramente chegam até ele de forma direta, mas chegam sinais suficientes de uma fé “resiliente” que sustenta quem as viveu. “A fé é sempre uma âncora emocional. Serve para o desespero e para a espe rança”, salienta.
Nos Emirados Árabes Unidos, os templos religiosos são parte dessa âncora, embora nem sempre funcionem como extensão do país de origem. “As igrejas são pontos de encontro com Deus, antes de serem pontos de encontro com a pátria”, explica. A maioria das missas é celebrada em inglês, mas quando surge um padre capaz de falar a língua materna de determinada comunidade, “a comunidade inteira se mobiliza.” E se a fé é âncora, a solidariedade é músculo. “Quando há uma catástrofe, a comunidade afetada une-se. Os brasileiros foram incansáveis quando uma barragem rompeu em 2024. O Governo também apoia sempre com dinheiro, comida, bens essenciais”, recorda.
A convivência entre nacionalidades historicamente inimigas, é um dos paradoxos do emirado. “Indianos e paquistaneses, russos e ucranianos, israelitas e árabes… aqui fazem negócios juntos, trabalham lado a lado. Só nos jogos de criquete se nota alguma tensão”, conta com um sorriso.
As “sementes de paz” de que o Papa fala, fazem-lhe sentido. “Deviam germinar em casa, mas muitas vezes crescem melhor fora dela”, reflete, lembrando guerra, consegue manter identidade e esperança. Só quem quiser viver fora da rede não encontra comunidade. Aqui, a pertença forma-se facilmente”, garante. Para muitos, contudo, a vida no Dubai é vivida com o coração preso a outro lugar. “São dias de angústia”, descreve, acrescentando: “O telemóvel torna-se um refúgio. Procuram acompanhar quem ficou para trás.” As histórias mais traumáticas raramente chegam até ele de forma direta, mas chegam sinais suficientes de uma fé “resiliente” que sustenta quem as viveu. “A fé é sempre uma âncora emocional. Serve para o desespero e para a esperança”, salienta.
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