O churrasco e a missa

Diogo Fernandes
24 Jul. 2024 4 mins
O churrasco e a missa

Chegamos àquela época do ano em que começamos a marcar churrascos entre amigos e familiares. E convenhamos, nada representa melhor o espírito de união e amizade do que uma boa churrasqueira acesa, uma costelinha a assar lentamente e, claro, muita conversa e “amena cavaqueira”. Mas, meus caros leitores, aqui vai uma verdade que talvez muitos ainda não tenham percebido: a verdadeira finalidade do churrasco não é “comer carne”.

Sim, leu bem. Se acha que o churrasco se resume a encher o prato de picanha e linguiça, lamento dizer que está enganado. Um bom churrasco é aquele que demora. Demora porque o propósito não é devorar carne rapidamente mas sim aproveitar a companhia, fortalecer laços e criar memórias. Quem chega ao churrasco e já quer comer imediatamente, não entendeu o convite. Essas pessoas só atrapalham tudo. Quer comer carne rápido? Vai ao supermercado, compra um quilo de carne e come. Pronto. Simples assim.

Agora, se quer realmente entender o espírito do churrasco, precisa de aprender a arte da paciência. Um bom churrasquinho é aquele que às oito da manhã se coloca um suculento naco de carne a grelhar lentamente. Vai ficar lá a assar por horas e nós vamos ficar ao redor da churrasqueira a conversar, a rir e a beber umas cervejas. Às quatro da tarde, quando finalmente estiver pronta, acredite, provavelmente nem vai ter tanta fome de tanta coisa boa que já aconteceu ao redor daquela churrasqueira.

E não é isso que importa? O churrasco é sobre a união das pessoas, sobre estar junto, sobre aproveitar a companhia uns dos outros. Não é sobre “a carne”. A carne é só uma desculpa. Um pretexto para juntar a malta e fazer aquele convívio que dura o dia inteiro.

Se pensarmos bem, o churrasco tem muito em comum com a missa. Se a finalidade da missa fosse só “comer a hóstia” (e permitam-me aludir desta maneira neste contexto), poderíamos resolver tudo num minuto. Aliás, poderíamos até colocar uma máquina automática para distribuir a hóstia. Mas a missa, assim como o churrasco, não é sobre isso. A missa é sobre união, sobre comunidade, sobre estar junto com os outros fiéis, compartilhando a fé e fortalecendo os laços espirituais.

A missa demora “mais um pouco” exatamente porque não é só sobre o ato de receber a hóstia consagrada mas sobre todo o processo, sobre todo o ritual, sobre toda a comunhão entre as pessoas presentes. E isso é o que a torna especial. É esse tempo que passamos juntos, em oração e reflexão, que realmente faz a diferença.

Então, da próxima vez que for a um “churrasco”, lembre-se: a “carne” é apenas um detalhe. Aproveite o tempo com os amigos e a família. Desfrute das conversas, das gargalhadas, das histórias partilhadas. E se alguém reclamar que a carne está a demorar, ofereça uma cerveja e puxe um novo assunto. Afinal, é disso que o churrasco realmente se trata: criar memórias que vão durar a vida inteira!

E quem sabe, ao entender o verdadeiro espírito do churrasco, possamos também levar essa lição para outros aspetos da nossa vida. Que possamos valorizar mais a companhia dos outros, que possamos ser mais pacientes e que possamos encontrar alegria nas pequenas coisas, no tempo que passamos juntos, na união que nos fortalece.

Porque, no fim das contas, a vida é como um churrasco: não é sobre a carne mas sobre quem está ao nosso lado ao redor da churrasqueira.

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