Habitação. Vou comprar.

Filipe Fernandes
4 Mar. 2026 3 mins

Vou comprar casa.
Perto de mim apareceu, nestes dias, um T3. Vou comprar casa.

Vivo num T2 e tenho dois filhos. Tenho um salário normal. Não é o mínimo, mas é o que ganha um técnico superior em início de carreira. Atualmente pago perto de 800 euros de renda. Nos dias de hoje é habitual. Noutros tempos, estes valores abriam telejornais. Mas já se normalizou. E até se pode dizer que tive sorte em tê-lo encontrado vago. O apartamento que arrendo nem chegou a entrar no mercado. Quando ia visitar um, disseram-me que tinha surgido outro nesse mesmo dia. Por sorte, apanhei-o. Uma pechincha de quase um ordenado mínimo, à época.

Vou comprar casa. Um T3 é o espaço certo para criar duas crianças. Um quarto para cada um. Já sonho com os novos espaços e com as rotinas novas. Vou comprar casa.

Dizem-me que é uma pérola. Um achado. Um preço realista. Trezentos mil euros e uns trocos.
Não é uma moradia com piscina. Não é luxo. É um apartamento normalíssimo, aos preços normais de 2026. E, ainda assim, debato-me com os trocos. Porque tudo conta. Afinal, o dinheiro custa a ganhar.

Falo com o banco do Estado, a nossa Caixa Geral. Peço simulações. Envio documentos. Respondo a perguntas. Na ânsia de fechar o negócio, trato de tudo em tempo recorde. Aguardo. Sonho. Vou comprar casa.

Chegam as primeiras condições: preciso de 10% para a entrada. Tenho 40 anos. Já não sou “jovem”. A isenção termina aos 35. A sorte, afinal, também tem prazo de validade.
Mas não desisto. Faço contas. Reúno soluções. A família ajuda como pode. Cada contributo é um fôlego extra numa maratona que parece estar perto da meta. O esforço é grande, mas o sonho ajuda a empurrar. Vou comprar casa.

Depois chegam as restantes linhas da fatura invisível: comissão de estudo, comissão de avaliação, comissão de formalização, imposto de selo sobre a compra, imposto de selo sobre o crédito, documento particular autenticado, seguro de vida, seguro multirriscos.

Vou somando.

E então surge o IMT.
Leio o valor: 11 mil euros.

Bloqueio.

No total, para começar, uma casa regular exige perto de 47 mil euros. Quarenta e sete mil euros antes de abrir a porta. Um balde de água fria. Uma barreira.

Dizem-me que há quem faça um crédito pessoal para cobrir a entrada. Imagino o sufoco. Duas prestações. Décadas de compromisso. Para terminar quando tiver os meus setenta anos. Informam-me que a mensalidade poderá rondar os 1.500 euros.

Ia comprar casa. Não vou comprar casa.

Um apartamento de trezentos mil euros, que há poucos anos compraria uma moradia generosa, é hoje tratado fiscalmente como luxo. Mas não é luxo. É habitação para uma família comum.
Hoje, qualquer casa vale ouro. E só por sorte se tem menos de 35 anos.
Não vou comprar casa.

Sinto o que tantos sentem em silêncio: desencanto, frustração, cansaço. Fala-se da urgência da habitação. Anunciam-se medidas. Prometem-se soluções. Mas, no momento decisivo, continuamos sozinhos diante das contas.

Quando trabalhar não chega para viver, o problema não é individual, é estrutural.

Não vou comprar.

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