A Biblioteca da Escola Superior de Educação (ESE) do Instituto Politécnico de Viana do Castelo acolheu o encontro “Interculturalidade em Ação: Práticas, Desafios e Caminhos”, uma iniciativa da EAPN Portugal, em parceria com a ESE e a Associação Terra de Todos. Ao longo da manhã, cruzaram-se perspetivas académicas, institucionais e testemunhos na primeira pessoa, num esforço de aproximar o debate público da realidade concreta de quem vive a interculturalidade todos os dias.
O objetivo foi promover o diálogo, mas sobretudo a escuta. “Nada sobre nós sem nós” foi, de resto, o princípio destacado por António Pereira, responsável pelo Núcleo Distrital de Viana do Castelo da EAPN Portugal, no balanço final do encontro. “O balanço é positivo. Foi uma sessão participada e conseguimos dar visibilidade e voz às pessoas em situação de imigração”, afirmou.
A sessão de abertura contou com intervenções institucionais, seguindo-se a conferência “Cultura e culturas — a escola como lugar privilegiado para o encontro de culturas”, que destacou o papel central da escola na construção de sociedades mais inclusivas.
Um dos momentos centrais foi a mesa-redonda dedicada à tensão entre o que está consagrado na lei e o que é vivido no quotidiano. Juristas, forças de segurança e mediadores interculturais trouxeram experiências distintas, mas convergentes: persiste um desfasamento entre direitos formais e a sua concretização.
O subcomissário Hugo Lário, da PSP de Viana do Castelo, sublinhou a importância da empatia e da mediação cultural no terreno. “A melhor mensagem é a partilha e a preocupação com as pessoas. Entre o que existe na lei e a realidade há ainda algum afastamento. O desafio é encontrar esse ponto de equilíbrio, com respeito pelos direitos humanos e pelas diferenças culturais”, referiu.
Também na área jurídica e social, foi destacado que o acesso a direitos, como regularização, reagrupamento familiar ou acesso a serviços públicos, continua a ser um processo complexo, muitas vezes dificultado pela burocracia, pela falta de informação ou pela barreira linguística.
A escola surgiu repetidamente como espaço-chave de integração. Não apenas como local de aprendizagem formal, mas como ponto de contacto entre culturas, onde se constroem ou desconstroem estereótipos. Ainda assim, foi sublinhado que a mudança é gradual e exige investimento contínuo na formação de profissionais e na sensibilização das comunidades.
A segunda parte do encontro foi marcada pelos testemunhos de pessoas migrantes a viver em Viana do Castelo. Relatos diretos, muitas vezes emocionais, que trouxeram à discussão temas como a adaptação cultural, a saudade, as dificuldades económicas e a importância da segurança.
Uma das participantes destacou a tranquilidade como um dos maiores ganhos. “Poder caminhar com calma, viver sem medo… são coisas pequenas, mas que fazem toda a diferença na nossa qualidade de vida”, evidenciou.
Outros testemunhos sublinharam o choque inicial, com o clima, a língua ou os costumes, mas também a capacidade de adaptação e a vontade de contribuir para a sociedade de acolhimento. “O que peço aos portugueses é que não tenham preconceitos. A imigração não é uma competição. Queremos integrar-nos, trabalhar e contribuir. Estamos aqui para somar”, acrescentou.
A ideia de reciprocidade foi recorrente. Quem chega reconhece o acolhimento, mas também reivindica espaço para participar ativamente na construção da comunidade, seja através do trabalho, da partilha cultural ou de iniciativas solidárias, como mercados comunitários e redes de apoio.
O debate surge num contexto em que a imigração em Portugal continua a crescer e a transformar o tecido social. Dados recentes indicam que o número de estrangeiros residentes no país tem vindo a aumentar de forma consistente nos últimos anos, ultrapassando já um milhão de pessoas, um valor historicamente elevado.
Este crescimento coloca novos desafios às políticas públicas, sobretudo nas áreas da habitação, educação e acesso a serviços, mas também abre oportunidades num país marcado pelo envelhecimento demográfico e pela necessidade de mão de obra em vários setores.
No final, a principal conclusão do encontro é que “é preciso ouvir mais”. Ouvir quem chega, quem trabalha no terreno e quem estuda o fenómeno. “Para nós, o mais importante é dar voz às pessoas e criar espaços onde diferentes perspetivas se encontrem. Só assim conseguimos construir comunidades mais coesas”, sublinhou António Pereira, lembrando que iniciativas como esta não são um fim em si mesmas, mas parte de um processo mais amplo de participação cidadã.
Notícias atuais e relevantes que definem a atualidade e a nossa sociedade.
Espaço de opinião para reflexões e debates que exploram análises e pontos de vista variados.