O surgimento de um movimento de criadores de gado, que exige o fim da proteção legal do lobo ibérico, voltou a intensificar o debate sobre a convivência entre a conservação da espécie e a pecuária extensiva no norte de Portugal. Produtores afetados por ataques atribuídos ao predador defendem a revisão da legislação e criticam o sistema de compensações por prejuízos, enquanto investigadores alertam que o abate de lobos não resolve o problema e pode, até, agravar os conflitos.
O lobo está protegido em Portugal desde 1988 pela Lei nº 90/88, de 13 de agosto, e encontra-se, também, abrangido por convenções internacionais de conservação da natureza, como a Convenção de Berna e a CITES (Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção). Apesar da perceção de que a espécie tem aumentado em algumas regiões, os dados científicos indicam que a situação continua frágil.
Segundo o investigador Francisco Álvares, o último censo nacional, realizado entre 2019 e 2021, identificou “cerca de 60 alcateias reprodutoras em Portugal”. Em comparação com o levantamento anterior, feito entre 2002 e 2003, “verificou-se uma redução de cerca de 23% da área de distribuição da espécie”. “O lobo apresentou uma regressão enorme ao longo do século XX, e ficou restrito a cerca de 20% da sua área de distribuição original”, explica o investigador, acrescentando que a população nacional continua classificada como estando em perigo de extinção.
Nos últimos anos, no entanto, o noroeste do país tem registado uma evolução diferente. Em algumas áreas do Alto Minho e do Parque Nacional da Peneda-Gerês, investigadores têm observado um aumento do número de alcateias e de indivíduos.
De acordo com Francisco Álvares, esta situação está relacionada, sobretudo, com a disponibilidade de alimento. “Em muitas zonas, há cavalos e vacas em regime de liberdade, o que representa alimento fácil para o lobo”, refere. Em alguns territórios foram mesmo registadas alcateias com mais de 15 indivíduos, um número pouco comum em Portugal.
Entre as presas disponíveis encontra-se frequentemente o garrano, cavalo de pequeno porte tradicionalmente criado em regime livre nas serras do norte. “Onde existem garranos, o lobo tende a selecioná-los positivamente na sua dieta”, explica o investigador.
Foi neste contexto que surgiu, recentemente, a União dos Produtores de Gado Lesados pelo Lobo, movimento que reúne criadores do norte do país e que defende a revisão do regime de proteção da espécie. Em declarações públicas, os produtores afirmam que a presença de lobos tem aumentado e acusam o predador de provocar prejuízos significativos na pecuária e na criação de cavalos em regime livre.
Os criadores criticam, também, o sistema de compensações pelos prejuízos provocados por predadores, considerando que o processo é excessivamente burocrático e que os valores pagos nem sempre refletem as perdas reais.
Para os investigadores, contudo, o conflito é mais complexo do que muitas vezes é apresentado. Francisco Álvares sublinha que nem todos os ataques atribuídos ao lobo são, efetivamente, provocados por este predador. “Quando o gado está desprotegido, não é apenas o lobo que o ataca. Há muitos cães vadios no território”, afirma.
Em alguns casos analisados no âmbito do projeto europeu Life Wild Wolf, ataques inicialmente atribuídos ao lobo revelaram ind
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