A Associação de Futebol de Viana do Castelo (AFVC) promoveu a conferência “Saúde Mental no Desporto: O Papel dos Clubes”, na Escola Básica e Secundária de Arga e Lima, em Lanheses, no concelho de Viana do Castelo. A iniciativa, integrada no mês dedicado à saúde mental, procurou sensibilizar clubes, dirigentes, atletas e a comunidade em geral para a importância de reconhecer os sinais de alerta e promover o bem-estar psicológico no contexto desportivo.
Sob o mote “promover a saúde mental no desporto”, a AFVC destacou que, embora a prática desportiva seja frequentemente apontada como uma forma de promover a saúde mental, também pode estar associada a desafios e experiências negativas. Nesse sentido, a associação defendeu a necessidade de desenvolver um trabalho mais claro e objetivo junto dos clubes, criando condições para que a saúde mental seja abordada de forma aberta e integrada no quotidiano desportivo.
A iniciativa surge num contexto em que a violência continua a representar um desafio para o desporto, desde os insultos dirigidos à arbitragem aos confrontos nas bancadas e à pressão exercida sobre os atletas, incluindo crianças e jovens em formação. Os dados da Guarda Nacional Republicana (GNR) relativos à época desportiva 2025/2026 indicam que, no Alto Minho, foram monitorizados 550 eventos desportivos, dos quais 31 registaram incidentes.
O presidente da AFVC, Ricardo Felgueiras, salientou que a missão da associação deve ir além da organização, orientação e apoio aos campeonatos e competições, passando, também, por responder às necessidades dos diferentes intervenientes no desporto, nomeadamente no domínio da saúde mental.
Também, o presidente da Junta de Freguesia de Lanheses, Luís Grenho, destacou o papel do desporto enquanto “escola de valores, superação e sonhos”. No entanto, alertou para os desafios que podem surgir no contexto competitivo, sobretudo entre os mais jovens. “A comunidade em geral, às vezes, não tem noção de que estão a falar para crianças e jovens”, observou, chamando a atenção para o impacte que determinados comportamentos e comentários podem ter nos atletas em formação.
A conferência foi conduzida por Joana Figueiredo, psicóloga da AFVC, que abordou os sinais que podem indicar uma alteração do bem-estar psicológico dos atletas e explicou como agir perante uma possível situação de dificuldade ou perturbação mental.
A psicóloga começou por sublinhar a importância de distinguir um sintoma de uma perturbação, tendo em conta fatores como o contexto em que surge, a duração e o impacte do comportamento na vida da pessoa. Perante sinais de alerta, defendeu uma abordagem atenta e individualizada, que permita compreender o que está a acontecer antes de retirar conclusões.
“Não olhar para os atletas apenas como atletas, mas sim como pessoas que também têm dificuldades” foi uma das ideias centrais da intervenção. Joana Figueiredo salientou, assim, a importância de reconhecer que os desportistas enfrentam desafios que ultrapassam o rendimento competitivo e que podem afetar o seu bem-estar dentro e fora de campo.
Neste acompanhamento, a psicóloga identificou três elementos fundamentais, os atletas, as famílias e os clubes, que devem trabalhar em conjunto, formando uma base de apoio capaz de responder às necessidades dos mais jovens e de promover um ambiente desportivo saudável.
Entre os principais fatores que podem afetar a saúde mental dos atletas encontram-se a pressão pelo rendimento, as lesões e as derrotas, a relação com treinadores e colegas de equipa, a dificuldade em conciliar o desporto com outras áreas da vida, o sentimento de exclusão e a exposição e pressão sociais.
Perante uma situação de possível fragilidade psicológica, Joana Figueiredo defendeu que os clubes devem observar os comportamentos, procurar compreender o contexto e abordar o atleta de forma tranquila e privada. Escutar sem julgar, promover o diálogo e incentivar relações assentes no respeito e na inclusão são algumas das atitudes consideradas essenciais.
Em sentido contrário, a psicóloga alertou para comportamentos que podem agravar o problema, como ignorar os sinais de alerta, expor o atleta perante a equipa, responder com agressividade, fazer julgamentos ou interpretar as suas dificuldades como falta de disciplina.
Durante o debate, um dos participantes chamou, também, a atenção para a necessidade de intervir perante os comportamentos nas bancadas, defendendo que clubes e árbitros devem assumir responsabilidades na prevenção de atitudes prejudiciais durante os jogos. Em resposta, a AFVC revelou que está a desenvolver ações de formação dirigidas a pais, clubes e árbitros, com o objetivo de sensibilizar estes intervenientes para a importância de comportamentos adequados no contexto desportivo.
Na sua intervenção, Joana Figueiredo reforçou que o “desporto não é apenas rendimento”, lembrando que as relações estabelecidas e o ambiente vivido pelos atletas influenciam a forma como experienciam a competição. A psicóloga defendeu, por isso, que a inclusão deve ser uma prioridade, que os comportamentos merecem acompanhamento e que a psicologia deve abranger todos os intervenientes no desporto, dentro e fora de campo.
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