Inês Barbosa é a quinta geração de uma família ligada à ourivesaria portuguesa e fundadora, em 1993, da empresa que tem o seu nome, sediada na Póvoa de Lanhoso, um dos principais polos tradicionais de ourivesaria e de filigrana em Portugal. O primeiro contacto com a arte aconteceu aos 13 anos, na oficina do pai, e, desde então, dedicou o seu percurso à preservação das técnicas ancestrais da filigrana e do granulado, conciliando o trabalho manual com novos desenhos e uma abordagem contemporânea à joalharia. A empresa produz peças inte¬gralmente feitas à mão e procura manter viva uma tradição transmitida ao longo de gerações. A ligação a Viana do Castelo surge precisamente através desta tradição: há décadas que as peças produzidas na Póvoa de Lanhoso chegam à cidade, em que o ouro assume uma forte dimensão cultural e identitária, particularmente através dos trajes das mordomas e das Festas de Nossa Senhora d’ Agonia. Nos últimos dois anos, a empresa tem também desenvolvido uma parceria com a Viana Festas, aproximando ainda mais o seu trabalho da tradição vianense.
Notícias de Viana (NdV): Teve o primeiro contacto com a filigrana aos 13 anos. Como surgiu?
Inês Barbosa (IB): Comecei a trabalhar aos 13, mas o contacto propriamente dito com a filigrana vem muito antes, porque eu nasci no seio de uma família de ourives. Portanto, o contacto foi muito antes, muito, muito antes. O meu pai era ourives, trabalhava com filigrana, o meu avô também, e eu sou a quinta geração já a trabalhar neste ramo da ourivesaria.
(NdV): E qual é a primeira memória que tem desta área?
(IB): É muito engraçada, porque, do que mais me lembro, independentemente de me recordar de muitas coisas do meu pai, porque eu aprendi a trabalhar com ele, muito miúda, recordo-me do meu avô a fazer contas. Não as chamadas contas de Viana, que são chapa e depois levam umas pequenas rodas em fio torcido. Mas contas mesmo de filigrana, que se fazem de uma forma completamente diferente das outras. São flores, chamamos nós aqui, na nossa gíria de trabalho, que se enchem com a filigrana e depois são feitas as meias-calotas, é feita a bola.
E eu recordo-me muito, muito, de ele fazer. Era um trabalho que ele fazia constantemente e era de uma perfeição que eu ficava ali a olhar horas e horas para aquilo. Foi isso, uma das coisas que me fascinou nesta área.
(NdV): O que pode perder-se da filigrana se isto acaba por não passar de geração para geração?
(IB): Perde-se, perde-se uma grande arte. Acho que, culturalmente, o país perde muito, porque a filigrana tem mais de dois mil anos de história. E são centenas e centenas de anos. Mas não, eu não acredito que isso seja, sequer, uma hipótese.
(NdV): O que tentou incutir às suas filhas, neste sentido?
(IB): De continuar a fazer bem, honrar o nosso saber, aquilo que nos foi legado, que nos foi deixado. Ou seja, continuar a fazer filigrana manualmente, segundo as técnicas ancestrais. Há algo que elas já aplicam, que é inovar e procurar novos desenhos, às vezes novos materiais para juntar à filigrana. Mas devem continuar com a mesma técnica, com a mesma lealdade no trabalho.
E eu tento incutir muito isso às minhas filhas e elas já estão muito dentro de toda a dinâmica da empresa. E elas próprias já têm, se calhar, o seu próprio cunho para fazer determinadas peças.

(NdV): Falou da técnica. O que tem esta técnica vindo a mudar, desde que entrou para este mundo? Ou sente que continuam a fazer as coisas da forma tradicional?
(IB): Porque os pensamentos mudaram, as gerações mudaram, os
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