Há duas formas muito diferentes de visitar Viana do Castelo.
Uma é com mala de rodinhas, telemóvel na mão e olhos bem abertos.
A outra é com chaves no bolso, pressa nos passos e um suspiro inconsciente. Curiosamente, ambas começam no mesmo sítio.
O centro histórico, por exemplo.
O turista chega como quem entra num museu ao ar livre. Para. Olha à volta. Fotografa. Admira a nobreza das fachadas, os detalhes das varandas, as pedras que contam histórias sem precisar de legenda. Diz que “a cidade tem charme”, que “se sente a história no ar”, que as pessoas são simpáticas e que até o tempo parece correr devagar. Compra um íman, come uma bola de Berlim no natário, entra numa loja local, sorri para quem passa.
O residente atravessa o mesmo espaço, mas vê outra coisa. Vê portas fechadas, lojas vazias, ruas bonitas… mas silenciosas demais. Não repara na pedra lavrada, mas na falta de gente. Não vê o postal, vê o intervalo entre cafés. Onde o turista vê encanto, o residente vê ausência. E segue caminho, porque “já conhece isto tudo”.
Segue para a Praça da República.
Para quem vem de fora, é o coração da cidade. Um sítio perfeito para sentar, beber um café, observar pessoas e imaginar como seria viver ali. Tudo parece equilibrado, harmonioso, quase cénico. A praça funciona, respira, acolhe.
Para quem cá vive, é sobretudo um lugar de passagem. Um ponto de encontro rápido. Um sítio onde se marca “ali ao pé do chafariz” e se segue. Raramente se para. Afinal, nada daquilo vai fugir.
Encaminha-se para o Santuário de Santa Luzia.
O turista sobe, de elevador, de carro ou com algum esforço, a pé, e fica sem palavras. A vista é “de cortar a respiração”, dizem. O mar, o rio, a cidade inteira ali, estendida como um mapa vivo. Há silêncio, vento e uma sensação estranha de privilégio. Fotografam tudo e até tiram uma fotografia na velha máquina “à la minuta” do Sr. Manuel. Prometem voltar.
O residente olha para Santa Luzia como quem olha para um velho conhecido. Sabe que está lá. Sabe que é bonita. Mas raramente sobe. Talvez num domingo qualquer. Talvez quando vem alguém de fora. Porque, no fundo, aquilo sempre esteve ali.
Desce e chega perto do rio Lima.
O turista vê tranquilidade, reflexos, barcos, espaço para respirar. Caminha devagar, aprecia a paisagem, comenta como a cidade é “equilibrada entre natureza e urbano”. Parece-lhe um luxo.
O residente passa pelo rio como quem passa por um espelho antigo: sabe que está ali, mas já não se vê nele. Às vezes esquece-se de parar. Outras vezes pensa que podia estar melhor aproveitado. E segue.
Por fim, as pessoas.
O turista diz que os vianenses são muito simpáticos, acolhedores, sempre prontos a ajudar. E tem razão.
O residente, por sua vez, acha que a cidade é pequena, que toda a gente se conhece demais, que se fala muito… e age pouco.
Talvez ambos estejam certos. Viana do Castelo é uma cidade rica em beleza, história e carácter. O problema não é o que a cidade é. É o hábito de a ver sempre da mesma forma. Talvez nos falte, de vez em quando, visitar a nossa própria cidade como quem chega pela primeira vez. Sem pressa. Sem queixas automáticas. Com os olhos um pouco mais abertos.
Porque, às vezes, o que falta a Viana não é mais, é apenas um novo olhar.
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