Não é expectável que as eleições presidenciais mudem alguma coisa na política local do Alto Minho. Afinal de contas, o Palácio de Belém fica a quase quatro horas de Viana do Castelo e o Presidente da República surge, na vida do distrito, mais como convidado de honra — a cereja em cima do bolo —que como uma presença constante. Ainda assim, isso não significa que não se possa fazer balanços.
Um dos grandes vencedores regionais é, indiscutivelmente, José Maria Costa. Mesmo que o jogo ainda vá a meio, o antigo presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo teve, com a vitória de António José Seguro, uma prenda do destino, uma recompensa da História. Na altura em que o atual candidato presidencial foi desafiado por António Costa para a liderança do PS, José Maria Costa apoiou Seguro e viu a sua dama cair perante o candidato que, mais tarde, viria a ser o seu chefe de Governo, quando, após a saída da autarquia, assumiu funções como Secretário de Estado do Mar. Se o candidato socialista ganhar na segunda volta, José Maria Costa poderá dizer que, afinal de contas, sempre esteve certo.
No entanto, tal como Plutarco anteviu, a política é caracterizada, na maior parte das vezes, por vidas paralelas. E se José Maria Costa surge como vencedor, Luís Nobre, também socialista e seu sucessor na Câmara Municipal de Viana do Castelo, aparece como derrotado. Não se terão desentendido por terem apoiado candidatos diferentes, mas a verdade é que Luís Nobre, que chegou a receber solenemente António José Seguro, acabou por integrar o séquito de Henrique Gouveia e Melo, à boleia de Mário Ferreira. Teve, como prémio de consolação, o facto de o Almirante ter ficado à frente de Marques Mendes no conjunto do concelho e até de Ventura, na cidade, mas, de resto, não lhe será difícil perceber em quem votar no início de fevereiro.
Vitorioso é também, à sua escala, Paulo Morais. Candidato da AD à Câmara Municipal de Viana do Castelo, rompeu com a efusividade do aparelho do PSD distrital, um dos grandes derrotados da noite. Morais não apareceu ao lado de Seguro, mas escreveu um artigo de opinião claro quanto à sua posição. Situação distinta da distrital laranja, que seguiu numa numerosa caravana de apoio a Marques Mendes, levando-o até ao chamado “cavaquistão” do Alto Minho, Arcos de Valdevez, em busca de inspiração para a derradeira fase da campanha, já depois do debate com Gouveia e Melo e num momento em que as sondagens apontavam para o resultado que viria a confirmar-se. A estratégia não resultou.
E uma das grandes perguntas da noite — se não a maior — prende-se com o paradeiro da massa eleitoral que garantiu uma expressiva vitória à AD nas últimas eleições legislativas e um triunfo substancial nas autárquicas realizadas no final do ano passado. Por que razão esses eleitores não foram persuadidos?
Ainda entre vencedores e derrotados, Eduardo Teixeira continua a ganhar oxigénio político. Antigo “patinho feio” do PSD, olhará certamente para a passagem de Ventura à segunda volta como mais uma confirmação da justeza da sua mudança de casa partidária. É curioso recordar que, em 2009, enquanto presidente da distrital do PSD de Viana do Castelo, Eduardo Teixeira afirmava que “veria com muito bons olhos” a eventual escolha do então líder do partido, Luís Marques Mendes, para cabeça-de-lista às eleições europeias. Passadas quase duas décadas, Teixeira mudou-se para o Chega e, numa só noite, deu uma chapada de luva branca aos antigos colegas de partido, que não venceram em nenhum concelho do distrito.
A comparação entre os resultados das eleições presidenciais de 2026 e os de 2021 no distrito de Viana do Castelo evidencia uma alteração profunda na estrutura da competição eleitoral, tanto na distribuição do voto, como na participação. Em 2021, o distrito apresentou um padrão fortemente concentrado: Marcelo Rebelo de Sousa obteve 63,66% dos votos (56.937), mais de cinco vezes o resultado do segundo classificado, Ana Gomes, com 11,57% (10.348). André Ventura ficou, então, muito próximo, com 11,38% (10.177). Os restantes candidatos ficaram todos abaixo dos 5%, configurando uma eleição de baixa competitividade efetiva.
Em 2026, essa concentração desaparece. O primeiro classificado, António José Seguro, vence o distrito com 28,73% (37.281 votos), menos de metade da percentagem obtida pelo vencedor em 2021. O segundo classificado, André Ventura, aproxima-se significativamente, com 24,61% (31.941), reduzindo a diferença entre primeiro e segundo para cerca de quatro pontos percentuais. O terceiro classificado, Luís Marques Mendes, alcança 15,39% (19.969), valor que, por si só, já ultrapassa o resultado do segundo lugar em 2021. A seguir surgem João Cotrim de Figueiredo (13,96%; 18.113 votos) e Henrique Gouveia e Melo (12,93%; 16.785), ambos com expressão eleitoral comparável à do segundo classificado de 2021.
Do ponto de vista estritamente quantitativo, a eleição de 2026 transforma o distrito de Viana do Castelo de um sistema eleitoral fortemente hierarquizado para um sistema fragmentado, com cinco candidaturas acima dos 12%. Em 2021, a soma dos votos dos três candidatos mais votados, excluindo o vencedor, não atingia 30%. Em 2026, os cinco primeiros concentram cerca de 95% dos votos válidos, distribuídos de forma relativamente equilibrada.
A participação eleitoral reforça esta leitura de mudança estrutural. Em 2021, votaram 91.563 eleitores, correspondendo a uma taxa de participação de 38,49% dos inscritos. Em 2026, o número de votantes sobe para 133.031, com uma taxa de participação de 57,25%. O aumento é, simultaneamente, absoluto e relativo: mais cerca de 41.500 votantes e uma subida de quase 19 pontos percentuais na participação. Este crescimento ocorre num contexto em que o número de inscritos se mantém semelhante, o que indica que a diferença resulta, essencialmente, de maior mobilização eleitoral.
Os votos em branco e nulos mantêm-se residuais em ambos os atos, com variações pouco relevantes. Em 2021, os votos em branco representaram 1,39% e os nulos 0,93%. Em 2026, os brancos ficaram em 1,27% e os nulos em 1,18%. Estas diferenças não alteram, de forma significativa, a leitura global e sugerem que a principal mudança ocorreu na redistribuição do voto válido entre candidaturas, e não num aumento de formas de voto não expressivo.
Em termos comparativos, o dado central não é apenas a substituição de um vencedor por outro, mas a alteração da própria lógica da eleição. Em 2021, o distrito funcionou como espaço de ratificação de uma presidência amplamente consensual, com baixa competição e fraca participação. Em 2026, o mesmo território apresenta elevada competitividade, maior pluralidade de opções eleitoralmente relevantes e um envolvimento substancialmente superior do eleitorado. A diferença entre os dois momentos não é apenas de resultados, mas de estrutura: de uma eleição dominada por um polo único, para uma eleição caracterizada por dispersão do voto e equilíbrio relativo entre vários candidatos.
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