Confesse, caro leitor, para muitos de nós, quando alguém nos fala em sacrifício na Quaresma o que nos vem de imediato à mente é a troca, às sextas-feiras, da carne pelo peixe. Mas, vendo bem, com o tempo, até essa prática quase se tornou automática, já não representando qualquer tipo de “sacrifício”. Eis que este ano, o Papa Leão XIV veio nos dar um “abanão” que custa muito mais a “digerir” do que qualquer privação ou alteração de hábitos alimentares. Veio falar de “jejum das palavras”.
Não é fácil. Vivemos num mundo que nos obriga a ter opinião sobre tudo e a dispará-la rapidamente. O silêncio passou a ser visto como uma falha ou mesmo uma derrota. No entanto, a proposta do Papa é quase um manifesto de resistência. Pede-nos para “desarmar a linguagem”. Lembra-nos que a fé não se vê apenas no que comemos (ou deixamos de comer), mas na forma como controlamos os “apetites” da nossa alma.
Se pararmos para pensar, a nossa palavra, que deveria servir para construir pontes, tornou-se tantas vezes uma faca afiada. Tantas vezes usadas para criticar, para fazer e alimentar comentários corrosivos. Jejuar da língua exige uma coragem tremenda. É abdicar daquele prazer mesquinho de diminuir o outro só para nos sentirmos, por instantes, superiores.
E o que dizer das redes sociais? Esse território onde a agressividade parece ser a regra e o julgamento é feito em segundos. Ali, o jejum de palavras é um autêntico acto de amor. Exige a humildade de admitir que não sabemos tudo e a paciência de não atirar a primeira pedra (ou o primeiro post ou comentário).
Mas atenção, nem por um momento pensem que este silêncio é para ficarmos mudos e vazios. É um silêncio para “limpar os ouvidos”. Só quando baixamos o volume da nossa própria voz e guardamos as nossas certezas no bolso é que conseguimos verdadeiramente ouvir. Ouvir a Deus e, sobretudo, ouvir quem está ao nosso lado a sofrer em silêncio (perdoem-me a redundância). A caridade deixa de ser uma palavra bonita num livro e passa a ser algo real, dar tempo e atenção a quem precisa, a quem nos rodeia.
No fundo, este “jejum da língua” é preferir a paz ao conflito e a verdade ao “diz que disse”. É o compromisso de que, antes de abrirmos a boca ou de escrevermos uma mensagem no telemóvel, nos perguntemos se “Isto vai ajudar alguém?”. Porque, sejamos honestos, de pouco serve o estômago vazio se o nosso coração continuar cheio de palavras que magoam.
Notícias atuais e relevantes que definem a atualidade e a nossa sociedade.
Espaço de opinião para reflexões e debates que exploram análises e pontos de vista variados.