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Silenciar por dentro: um retiro que propõe parar para escutar

Durante três dias, cerca de 30 pessoas aceitaram um desafio pouco comum nos dias de hoje: desligar-se do mundo exterior para escutar o que se passa por dentro. No Centro Pastoral Paulo VI, em Darque (Viana do Castelo), decorreu, entre 23 e 25 de janeiro, um retiro de iniciação dos Amigos del Desierto, uma rede internacional de meditadores de inspiração cristã que propõe a prática do silêncio como caminho de autoconhecimento e de abertura espiritual.

Micaela Barbosa
2 Fev. 2026 5 mins
Legenda da Imagem:

Amigos del Desierto

Num tempo marcado pela aceleração, pela ansiedade e pelo excesso de estímulos, a proposta parece quase contraintuitiva. Mas é precisamente aí que, segundo os orientadores do retiro, reside a sua pertinência. “Nós falamos de silêncio, mas, na verdade, é silenciamento”, explica Manuel Bellido, um dos animadores, defendendo: “O silêncio refere-se mais ao exterior; o silenciamento é interior. É calar os ruídos que levamos dentro.”

Esse silenciamento não acontece de forma improvisada. O método dos Amigos del Desierto segue um itinerário pedagógico e espiritual, herdado da tradição cristã e atualizado por Pablo d’Ors, a partir dos ensinamentos do jesuíta Franz Jalics. “Há um caminho estruturado, com intenção de continuidade”, sublinha o orientador, explicando: “Começa sempre num retiro de iniciação e prolonga-se, depois, em grupos e seminários. Não se trata de aprender conteúdos, mas de viver uma experiência acompanhada.”

A dimensão pedagógica é, aliás, uma das marcas distintivas do método. Maribel Ruiz, também orientadora, reconhece que muitas propostas contemplativas falham precisamente nesse ponto. “Dentro da tradição católica, há escolas de silêncio que pecam por falta de pedagogia”, afirma, confidenciando: “Há pessoas que nunca meditaram e que se encontram, de repente, com horas e horas de silêncio. Ficam perdidas.”

Nos Amigos del Desierto, o caminho é diferente. “O método é muito bem estruturado do ponto de vista pedagógico”, explica. “Há momentos de explicação, cerca de 25 minutos, seguidos de tempos de meditação. Primeiro guiada, depois mais autónoma. Explicamos o que vai acontecer e depois aplicamos. É um percurso muito pautado e muito acompanhado”, clarifica.

Esse acompanhamento é, também, a razão pela qual os retiros são limitados a 30 participantes. “Somos três animadores; cada um acompanha cerca de dez pessoas”, explica Maribel Ruiz, salientando que “é exigente, mas necessário”.

Os orientadores passaram por retiros de iniciação e recebem formação contínua. Em Espanha, onde o movimento está mais implantado, existem dezenas de animadores e uma estrutura alargada que inclui equipas de formação, coordenação e acompanhamento espiritual.

O fim de semana é vivido em silêncio absoluto, de sexta-feira a Domingo, e organiza-se, simbolicamente, em três momentos: entrada no deserto, tempo de deserto e saída do deserto. “Ir ao deserto é encontrar-se consigo próprio”, resume Maribel Ruiz, acrescentando: “Trabalhamos as formas, o método, as ancoragens da meditação, e o fundo, isto é, o que surge interiormente e como lidar com isso.”

Ao contrário de muitas propostas contemporâneas, os Amigos del Desierto assumem-se como uma prática aberta a todos, independentemente da fé. “Qualquer pessoa pode entrar”, afirma Manuel Bellido, explicando: “O nosso, é um silêncio laico. Mas, se alguém permanece neste caminho, esse s

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