Norte é a região mais vulnerável às tarifas de Trump. Alto Minho pode sentir impactos devido à sua estrutura exportadora

Um estudo da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, encomendado pela Associação Comercial do Porto (ACP), alerta que a região Norte será a mais prejudicada por um eventual aumento das tarifas comerciais dos Estados Unidos. O documento, intitulado Alterações Geopolíticas e Guerra Comercial — Cenários, Impactos e Recomendações na Política, estima perdas de quase 3.300 empregos e mais de 300 milhões de euros na produção, destacando setores exportadores que concentram grande parte da atividade industrial da região.

Micaela Barbosa
30 Jan. 2026 4 mins
35% da produção em Viana do Castelo é para exportar

Segundo os autores, o Norte poderá concentrar mais de 45% do Valor Acrescentado Bruto (VAB) e quase 55% do impacto no emprego, refletindo a elevada exposição de indústrias exportadoras à instabilidade do comércio internacional. “No curto prazo, o Governo deverá dar atenção particular aos setores mais expostos ao aumento das tarifas dos EUA e ao possível abrandamento económico europeu”, refere, recomendando apoios públicos seletivos, diversificação de mercados e investimento em inovação e digitalização para reduzir vulnerabilidades.

Embora a informação divulgada sobre o estudo não detalhe impactos por sub-região, o Alto Minho apresenta características estruturais que o podem tornar particularmente sensível a choques comerciais internacionais. Concelhos como Viana do Castelo e Vila Nova de Cerveira destacam-se pela forte presença industrial e pelo peso das exportações na economia local. Entre 2011 e 2021, o Alto Minho aumentou as exportações em 66,3%, alcançando 1,9 mil milhões de euros em 2021, valor que representou 8,2% das exportações do continente e da região Norte. No mesmo período, o território gerou um Valor Acrescentado Bruto (VAB) de 1,6 mil milhões de euros, com a indústria transformadora a representar cerca de 41% do total, enquanto empresas de capital estrangeiro contribuíram com 37% do VAB, apesar de empregarem apenas 23% da mão de obra.

Para o economista José Escaleira, professor aposentado do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, estes indicadores revelam simultaneamente robustez económica e fragilidades estruturais. Em declarações prestadas ao Notícias de Viana, no contexto da análise do desempenho exportador da sub-região em 2025, o especialista sublinhou que “o Alto Minho cresceu muito graças às exportações e à atração de empresas estrangeiras, mas essa especialização territorial também aumenta a exposição a choques externos”. Segundo José Escaleira, um agravamento das condições do comércio internacional, como o aumento de tarifas ou uma desaceleração económica global, “pode afetar emprego, produção e valor acrescentado de forma significativa”.

O economista chamou ainda a atenção para a concentração geográfica das exportações e para o facto de muitas empresas terem sede fora da região, o que limita a retenção de valor local. “Grande parte do valor acrescentado gerado não permanece no território, o que amplifica os riscos em contextos adversos”, observa. Para mitigar essa vulnerabilidade, José Escaleira defendeu que “a diversificação de mercados, a inovação tecnológica e o investimento em formação e infraestruturas industriais não são apenas boas práticas, mas condições essenciais para que o Alto Minho consiga absorver choques como os previstos no estudo da Faculdade de Economia”.

Os dados mais recentes do relatório Norte Conjuntura reforçam a importância das exportações para a economia local. No primeiro trimestre de 2025, Viana do Castelo registou um crescimento homólogo de 23,5% nas exportações, enquanto Vila Nova de Cerveira aumentou 10,9%, com especial destaque para setores como a construção naval, celulose, metais e produtos alimentares. Em paralelo, a sub-região registou uma subida de 16,9% no número de desempregados inscritos nos centros de emprego, ilustrando o contraste entre dinamismo exportador e maior fragilidade do mercado de trabalho em setores mais expostos a choques externos.

Neste contexto, o estudo da Faculdade de Economia da Universidade do Porto sublinha a necessidade de políticas públicas diferenciadas por região, enquanto especialistas locais defendem que o Alto Minho poderá beneficiar de estratégias que promovam a fixação de empresas, o reforço da inovação e a diversificação de mercados. “Se o território conseguir associar crescimento exportador a maior resiliência estrutural, através de investimentos em logística, formação e digitalização, poderá mitigar grande parte dos riscos identificados para o Norte. Caso contrário, os impactos poderão revelar-se mais severos do que os estimados a nível regional”, concluiu José Escaleira. 

c/ Lusa

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