Depressão Kristin deixa rasto de destruição e mobiliza país. Governo aprova apoios de 2.500 milhões e Alto Minho junta-se à resposta solidária

A passagem da depressão Kristin por Portugal continental provocou um cenário de forte destruição, sobretudo no centro do país, causando pelo menos nove mortos, vários feridos e desalojados. Leiria, por onde a tempestade entrou em território continental, bem como os distritos de Coimbra e Santarém, registam os maiores estragos.

Micaela Barbosa
2 Fev. 2026 5 mins
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Escutismo - Viana do Castelo

Face à persistência dos impactes do mau tempo, o Governo decidiu prolongar a situação de calamidade até ao dia 8 de fevereiro, após reunião do Conselho de Ministros. A medida abrange 60 municípios afetados pela intempérie.

Na resposta à crise, o Executivo aprovou um conjunto de medidas de apoio no valor global de 2.500 milhões de euros. Segundo informação publicada no portal do Governo, estão previstos apoios diretos à reconstrução de habitação própria e permanente, com intervenções até 10 mil euros, “acessível a todos os cidadãos e famílias, sem necessidade de documentação, nos casos em que não haja cobertura de seguro aplicável”.

No âmbito da Segurança Social, estão definidos apoios financeiros “até 537 euros por pessoa ou 1.075 euros por agregado familiar” para famílias em situação de carência ou perda de rendimentos, bem como apoios a instituições particulares de solidariedade social. As empresas localizadas nas zonas afetadas beneficiam de isenção de contribuições para a Segurança Social por um período até seis meses, prorrogável, e de um regime simplificado de redução ou suspensão de atividade em situação de crise empresarial. Estão, ainda, previstos apoios ao emprego e à formação profissional, a conceder pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional.

O pacote inclui, igualmente, apoios de até 10 mil euros para agricultura e floresta, destinados à reposição da capacidade produtiva de explorações afetadas. No plano financeiro, foram anunciadas moratórias de 90 dias sobre empréstimos bancários relativos a habitação própria e permanente e a empresas localizadas nas áreas abrangidas pela calamidade, bem como linhas de crédito de 500 milhões de euros para tesouraria de empresas e associações, e de mil milhões de euros para recuperação de estruturas empresariais sem cobertura de seguros. Foi ainda aprovada uma moratória fiscal até 31 de março.

Para a recuperação de infraestruturas e património, o Governo determinou a transferência de 400 milhões de euros para a Infraestruturas de Portugal, 200 milhões de euros para as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional, com prioridade às escolas sem condições de funcionamento pleno, e 20 milhões de euros para a recuperação urgente do património cultural. Foi igualmente anunciada a criação de uma Estrutura de Missão para Reconstrução da região Centro do País, responsável pela coordenação, no terreno, dos apoios a populações, empresas e autarquias.

No terreno, multiplicam-se as respostas solidárias. Em Leiria, a Cáritas Diocesana angariou mais de 385 mil euros em 48 horas através do Fundo de Emergência Social Diocesano, criado para apoiar as populações afetadas pela tempestade. Em comunicado, a instituição refere que “foi possível angariar 385.579 euros”, resultado de 14.588 transações, com dados atualizados a 1 de fevereiro, às 13h00.

A Cáritas destaca “a notável generosidade da sociedade portuguesa”, sublinhando que a solidariedade demonstrada tem permitido “uma resposta rápida e estruturada a esta situação de emergência social”. A organização adianta que já foi possível proceder à entrega de alimentos e produtos de higiene, com o apoio de voluntários, em várias zonas da Diocese de Leiria-Fátima, incluindo áreas mais isoladas. Para garantir “uma intervenção rigorosa e transparente”, será criada uma equipa multidisciplinar para avaliar as situações reportadas e assegurar a aplicação adequada dos fundos. Técnicas de Serviço Social da Cáritas Diocesana de Lisboa irão também apoiar o trabalho no terreno.

Também a Igreja Católica manifestou solidariedade para com as vítimas. Numa mensagem enviada à Conferência Episcopal Portuguesa, o Papa Leão XIV afirma que, “ao saber das graves consequências da passagem da depressão Kristin pelo território português”, deseja “comunicar o seu pesar pelas pessoas que perderam a vida, unindo-se espiritualmente à dor dos respetivos familiares”.

O Papa refere, ainda, sentir “muito de perto a situação dos feridos, dos desalojados e de quem ficou seriamente afetado pelos enormes estragos dessa tempestade”.

As forças de segurança mantêm-se igualmente mobilizadas. Em comunicado, a Guarda Nacional Republicana refere que se encontra no terreno a desenvolver ações de proximidade, vigilância e apoio às populações, em articulação com o sistema de proteção civil, sublinhando que a sua atuação visa “a proteção de pessoas e bens”, e apela à adoção de comportamentos de autoproteção face aos riscos associados às operações de recuperação.

A mobilização estende-se a todo o país, incluindo o Alto Minho. A Região Escutista de Viana do Castelo mobilizou dirigentes para as zonas mais afetadas, nomeadamente Batalha, Marinha Grande e vila de Caranguejeira, onde participaram em ações de desobstrução de vias, remoção de detritos, distribuição de bens alimentares e apoio primário à população, mantendo igualmente ativa a recolha de bens essenciais.

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