Cinemas, há muitos!

Carlos Costa
13 Fev. 2026 4 mins
Carlos Costa

Por estes dias, o município de Caminha reivindica o estatuto de exclusividade na projeção de cinema comercial no Alto Minho. Em Viana do Castelo, com o encerramento das salas no Estação Viana Shopping, apenas uma sala mantém uma programação regular semanal: o Cinema Verde Viana. Este espaço, gerido pela Associação Ao Norte, mantém, no entanto, o foco da sua programação no cinema de autor e nos ciclos temáticos, afirmando-se categoricamente como alternativa ao cinema comercial.

Compreendo que, com a diminuição de públicos, a viabilidade financeira de um espaço de cinema possa estar comprometida. Ninguém, no seu perfeito juízo, pode explorar um negócio que dia após dia gera prejuízos. Por outro lado, também não consigo compreender como são exigidas contrapartidas, que incluem a afetação de parte de um edifício a espaços culturais – tal como as salas de cinema do Estação Viana Shopping – e, logo numa primeira oportunidade, essa desafetação vai avante. Não tenho dúvida que, naquele espaço destinado à cultura e ao cinema, uma qualquer cadeia de lojas irlandesa de vestuário e acessórios geraria muito mais valor. Mas não pode ser assim.

Infelizmente, estamos a assistir ao mesmo filme, agora numa versão “blockbuster”. Já assim foi no antigo Cinema Palácio. O mesmo guião, a mesma cidade, outro elenco. Quando, em 1990, encerrou a primeira sala de cinema de Viana do Castelo – inaugurada a 30 de setembro de 1950 – ficou estabelecido que seria condição que o novo edifício de comércio e escritórios mantivesse uma sala de cinema. O Edifício Palácio foi remodelado, foi mantida uma sala de cinema, destinada a “Atividades Recreativas e Culturais”, mas nunca foi utilizada com esse fim. Uma sala de cinema que nunca recebeu uma única projeção em 30 anos de história. Entendo que a afetação das nossas salas de cinema tem de se manter. Se não for explorada pela iniciativa privada, terá de ser a autarquia a assegurar essa oferta cultural.

Já todos vivenciámos uma ida ao cinema, no Estação Viana Shopping, em que éramos poucos, ou até mesmo os únicos utilizadores da sala. É triste. As realidades vão se alterando. Ainda por estes dias, foi notícia a estreia do filme documental de Melania Trump, primeira-dama dos Estados Unidos da América. A crítica é voraz. Custou 75 milhões de euros e – pasme-se! – em Portugal, está com uma média de 6 espetadores por sessão. Obviamente, não é este tipo de cinema que queremos em Viana do Castelo. Deveremos manter e reafirmar a região como um centro de produção e cultura cinematográfica. Seria bonito, estrear este ano a maior produção cinematográfica de sempre, inspirada em Viana do Castelo – com um custo de 15 milhões de euros – e os Vianenses terem de se deslocar a Caminha, ao Porto ou a Braga para assistir à projeção do “Viana, A Lenda dos Corações de Ouro”. Como se costuma dizer, era o que mais faltava….

Em 2025, Portugal registou 10,9 milhões de espetadores nos cinemas. Números redondos, poderemos afirmar que a região de Viana do Castelo tem um potencial de aproximadamente 230 mil espetadores anuais, ou seja, 4.000 potenciais espetadores por semana. São números importantes, que deverão ser considerados. A exibição em Caminha é feita no Cineteatro de Vila Praia de Âncora, uma sala com capacidade para 200 espetadores. A Câmara escolhe e aluga os filmes, sendo a receita destinada aos Bombeiros Voluntários. Em 2024, realizou 61 sessões, com um total de 3.464 espetadores. Um verdadeiro serviço público.

Estou certo que, num futuro mais ou menos longínquo, o conceito de cinema, tal como hoje conhecemos, vai desaparecer. Assim foi com todas as atividades de entretenimento da história da humanidade. Ficará apenas como uma memória. Talvez um conceito museológico. Mas para Viana do Castelo ainda não chegou essa hora. A grande maioria dos Vianenses quer ver cinema em Viana do Castelo.

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