Capela roubada, trancas à porta

Carlos Costa
12 Mar. 2026 4 mins
Carlos Costa

Foi recente notícia nacional, a onda de assaltos que passou pelas igrejas e capelas do Alto Minho. Segundo as autoridades, em apenas três dias, foram registados sete assaltos, nos arciprestados de Viana do Castelo, Paredes de Coura, Ponte de Lima, Caminha e Vila Nova de Cerveira. Um verdadeiro arrastão.

Na freguesia de Afife, por exemplo, duas capelas foram roubadas: para além da Capela de Nossa Senhora da Nazaré, também a Capela de Nossa Senhora do Alívio, foi assaltada. Segundo os responsáveis, na caixa de esmolas – recém-recolhidas – existiriam apenas cinco cêntimos. Agora consideremos e façamos contas aos estragos que foram infligidos à capela, para obter este saque.

Efetivamente, a perda em esmolas roubadas – apesar de impossível de contabilizar, pois na prática nunca sabemos o que teria sido doado por esses dias – é insignificante, quando comparado com o prejuízo causado ao próprio imóvel. O modus operandi é o habitual e pouco sofisticado: portas arrombadas, caixas de esmolas destruídas e tudo revirado. O prejuízo causado em reparações e arranjos é quase sempre superior ao prejuízo do roubo.

Uma das explicações para estes roubos “fáceis” está relacionado com o isolamento destas capelas e também com a desertificação das nossas aldeias. Muitas delas com escassos e idosos habitantes, outras ocupadas apenas durante o verão, outras com apenas um habitante ou até já desertas. Não será fácil, não apenas em termos de segurança, mas também em termos de conservação, assegurar que este património se mantenha e seja valorizado. Qual seria o propósito? Conservar e proteger para quê? Fica em aberto a reflexão para um texto futuro. É impossível ocupar-me do tema, também aqui. Adiante, pois…

Estes roubos não estão, no entanto, cingidos às capelas mais remotas. Também sucedem nas principais igrejas e capelas das cidades e vilas. Ainda no final de 2023, em apenas 2 meses, o Alto Minho foi varrido por uma onda semelhante de 17 furtos em locais de culto. Sei, pelo contacto que vou tendo com as diversas Comissões Paroquiais, que o zelo e a proteção deste nosso património é um trabalho ingrato. Existe um sentimento de impotência e impunidade. Muitas vezes até existem registos de videovigilância destes pequenos roubos, são identificados os autores, mas a maioria acaba sem qualquer tipo de consequência. Mas também casos há, em que a diligência das autoridades produz efeito, levando a penas que poderão ser, no mínimo, dissuasoras. Em 2024, por exemplo, o autor de vários furtos em igrejas e capelas da região de Braga, foi condenado a uma pena efetiva de 8 anos de prisão.

Para além das esmolas, é comum o roubo de alfaias religiosas, material de som ou mesmo de sinos. Menos comum, e mais sofisticado – muitas vezes fruto de encomendas – é o roubo de arte sacra. Importa, pois, lembrar o que é possível fazer e que medidas deverão ser acauteladas, para proteção dos imóveis afetos ao culto: segurança ativa, começando em primeiro lugar, com o reforço de portas, janelas e fechaduras; instalação de sistemas de alarme e videovigilância; consciencialização da comunidade, como parte ativa na proteção do seu património identitário e religioso; por último, o registo detalhado das peças de arte sacra, bens insubstituíveis. Importa fotografar, descrever, medir e pesar. Tecnicamente falando, importa inventariar. Só assim será possível almejar que um dia, em caso de roubo, seja possível recuperar essas peças.

É neste propósito de proteção e zelo, que o Secretariado Nacional dos Bens Culturais da Igreja – tal como o nosso Secretariado Diocesano dos Bens Culturais – publica e emite regularmente informação e instruções para a melhoria das condições de segurança do património religioso. Só conhecendo, é possível proteger. Os roubos não vão desaparecer. Mas podemos diminuir a cadência e as suas consequências.

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