Uma intervenção arqueológica em Arcos de Valdevez revelou um castro com mais de 2.000 anos, com vestígios da Idade do Ferro e elementos de romanização, considerado um dos mais significativos do Norte de Portugal. A descoberta inclui ainda uma pedra formosa “raríssima”, elemento que reforça a relevância histórica e simbólica do sítio.
O local, conhecido como Castro de Eiras, foi alvo da primeira escavação científica no verão de 2025, conduzida pela empresa Era Arqueologia em parceria com o Município de Arcos de Valdevez.
A intervenção teve como objetivo “avaliar o potencial arqueológico da área”, que se revelou “bastante grande”, não só pela dimensão do castro, implantado numa área de cerca de 10 hectares, mas também pela conservação e extensão dos vestígios.
A prospeção geofísica, recorrendo a georradar e magnetometria, permitiu identificar uma vasta área com múltiplos elementos arqueológicos, incluindo habitações, arruamentos, estruturas defensivas e silos, associados a uma ocupação entre os séculos II a.C. e I d.C.. Segundo o Município, “na primeira campanha arqueológica foi possível constatar que a descoberta tem ligação à Idade do Ferro, com a presença de ruínas de uma casa redonda, com um vestíbulo exterior, e alguns silos, que serviriam para armazenar produtos”.
As escavações revelaram também elementos de romanização, integrando o castro num projeto mais amplo de estudo da Romanização do Vale do Vez, o que coloca o Castro de Eiras numa lista de referência para o Norte de Portugal e para o país.
De acordo com o arqueólogo municipal e chefe da divisão de Desenvolvimento Sociocultural da autarquia, Nuno Soares, estão previstas novas campanhas arqueológicas anuais, pelo menos até 2029. “Essas escavações vão permitir revelar mais sobre o castro e, sobretudo, encontrar soluções para a sua recuperação. O nosso objetivo é criar uma musealização in situ, recuperar uma ou duas casas e criar um centro interpretativo”, explicou, sublinhando que a existência do castro era, até então, “uma mera referência”.
A importância excecional do sítio resulta, em grande medida, da descoberta, “por mero acaso”, de uma pedra formosa, elemento arquitetónico associado a balneários castrejos e considerado extremamente raro. “Há meia dúzia de exemplares em Portugal. Esse facto já quer dizer que era um castro estrategicamente importante”, salientou Nuno Soares.
A pedra formosa foi identificada em 2015, quando estava a ser utilizada na parede de uma casa de um emigrante. O monólito, com cerca de três toneladas, apresenta uma decoração rica, realizada por gravação e fricção, com espirais, círculos, linhas e covinhas, de significado e funcionalidade ainda debatidos pela comunidade científica. Integraria uma estrutura de banhos, possivelmente ligada a rituais iniciáticos das comunidades castrejas. A peça foi cedida à Câmara Municipal e pode hoje ser visitada no espaço Valdevez, sendo considerada uma das “jóias da coroa” do património local.
O presidente da Câmara Municipal, Olegário Gonçalves, sublinhou a importância da descoberta e o envolvimento da comunidade. “Queremos que a população conheça melhor esta herança histórica e se orgulhe desta descoberta”, disse, anunciando a realização de visitas guiadas exclusivas para a população local e confirmando que as escavações irão prosseguir nos próximos anos.
Em parceria com a empresa Era Arqueologia, o Município promoveu recentemente ações de sensibilização dirigidas às freguesias de Eiras, Mei e Aboim das Choças, com o objetivo de “despertar a população para a importância dos trabalhos arqueológicos desenvolvidos no designado Castro de Eiras e para a sua preservação”.
Paralelamente, a autarquia planeia a criação de um Centro Interpretativo, visando a “valorização do património arqueológico e a dinamização da economia local”.
c/ Lusa
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