O distrito de Viana do Castelo saiu da primeira volta das presidenciais com um resultado mais fragmentado e competitivo do que em ciclos anteriores. António José Seguro foi o candidato mais votado no conjunto do Alto Minho, mas com menos de um terço dos votos, enquanto André Ventura se aproximou significativamente e venceu em vários concelhos. A elevada participação e a dispersão do voto confirmam uma mudança estrutural no comportamento eleitoral do distrito, que combina continuidade nos resultados com sinais claros de reconfiguração política. Os números ajudam a perceber essa transformação; a história ajuda a explicá-la.
Os resultados presidenciais no Alto Minho, entendido aqui como o distrito de Viana do Castelo, descrevem um quadro simples e verificável: António José Seguro foi o candidato mais votado no conjunto do distrito, vencendo na maioria dos concelhos, enquanto André Ventura ficou em segundo lugar no agregado, mas liderou em alguns concelhos específicos. Luís Marques Mendes ocupou, de forma geral, a terceira posição, com variações locais, e o bloco seguinte — João Cotrim de Figueiredo e Henrique Gouveia e Melo — aproximou-se do patamar dos 10–15% conforme o concelho, sem alterar a hierarquia principal.
No agregado distrital, Seguro liderou com 28,73% (37.281 votos), Ventura obteve 24,61% (31.941 votos) e Marques Mendes 15,39% (19.969 votos). Cotrim de Figueiredo ficou com 13,96% (18.113 votos) e Gouveia e Melo com 12,93% (16.785 votos). Em termos operacionais, isto significa que a disputa no distrito se organizou em torno de um primeiro lugar com menos de um terço dos votos, e de um segundo lugar a curta distância, com uma diferença na ordem dos quatro pontos percentuais; por baixo, um terceiro candidato com expressão relevante, mas já afastado, e dois candidatos seguintes, numa faixa semelhante entre si.
A escala concelhia mostra duas regularidades: a primeira é a estabilidade de Seguro como primeiro classificado em grande parte do território; a segunda é a capacidade de Ventura para aproximar o resultado do primeiro ou, nalguns casos, ultrapassá-lo. Em Viana do Castelo (concelho), Seguro obteve 30,01% (14.895 votos), Ventura 22,05% (10.943), Cotrim 15,40% (7.643 votos) e Gouveia e Melo 15,38% (7.635 votos), com Marques Mendes a 11,67% (5.794 votos). Esta distribuição é relevante por duas razões estritamente numéricas: por um lado, confirma a liderança de Seguro acima do resultado distrital; por outro, mostra um empate técnico entre Cotrim e Gouveia e Melo, o que indica que a ordenação do “meio” do boletim muda localmente sem afetar o topo.
Caminha reforça esse padrão de liderança de Seguro, mas com um segundo lugar de Ventura mais próximo: Seguro 30,10% (2.793), Ventura 22,93% (2.128), Gouveia e Melo 15,81% (1.467), Cotrim 13,73% (1.274) e Marques Mendes 12,55% (1.165). O dado a sublinhar é a troca de posições entre Gouveia e Melo e Cotrim, com vantagem clara do primeiro, o que sugere que o “bloco intermédio” não é fixo e que a sua composição varia de concelho para concelho, ainda que o total combinado permaneça comparável.
Onde a hierarquia se altera é nos concelhos em que Ventura passa para a frente. Em Ponte de Lima, Ventura liderou com 26,29% (6.672) e Seguro ficou em segundo com 24,22% (6.147), com Marques Mendes em terceiro (19,15%; 4.860). Em Monção, Ventura venceu com 27,23% (2.454) contra 26,12% (2.354) de Seguro, diferença curta, com Marques Mendes em terceiro (18,36%; 1.655). Em Valença, a vitória de Ventura foi mais expressiva: 35,04% (2.338) contra 27,09% (1.808) de Seguro. Estes três concelhos têm em comum apenas aquilo que os números permitem afirmar com segurança: são os pontos do distrito em que Ventura consegue igualar ou superar o primeiro classificado, e em que, por consequência, a diferença entre os dois primeiros é mínima (Ponte de Lima e Monção) ou claramente favorável a Ventura (Valença). Não é necessário acrescentar qualquer leitura sociológica para reconhecer que isto configura, no interior do distrito, áreas de maior competitividade e, no caso de Valença, um polo de liderança nítida.
Nos restantes concelhos apresentados, Seguro mantém uma margem confortável, embora não uniforme. Em Arcos de Valdevez, Seguro ficou em primeiro com 27,58% (3.063), Ventura em segundo com 24,01% (2.666) e Marques Mendes em terceiro com 22,27% (2.473), um caso em que o terceiro se aproxima bastante do segundo e em que a distância entre os três primeiros é curta, criando um cenário tripartido em vez de uma corrida a dois. Em Ponte da Barca, Seguro liderou com 32,37% (1.985), Ventura obteve 24,17% (1.482) e Marques Mendes 19,81% (1.215), com Cotrim e Gouveia e Melo abaixo dos 11%. Em Melgaço, Seguro atingiu 34,31% (1.143), Ventura 20,95% (698) e Marques Mendes 17,89% (596), com Cotrim e Gouveia e Melo próximos dos 11%. Em Paredes de Coura, Seguro registou 33,74% (1.483) e Ventura 25,50% (1.121), com Marques Mendes a 16,97% (746). Em Vila Nova de Cerveira, Seguro obteve 33,31% (1.610) e Ventura 29,77% (1.439), uma das aproximações mais fortes do segundo ao primeiro entre os concelhos em que Seguro ainda vence.
Dito de forma estrita, o Alto Minho apresenta três configurações eleitorais observáveis: uma configuração de liderança de Seguro com margem confortável (acima de 30% e com o segundo vários pontos atrás), uma configuração de liderança de Seguro com segundo lugar muito próximo (como em Vila Nova de Cerveira e, em parte, Caminha), e uma configuração de liderança de Ventura, que vai de vitória curta (Monção) a vitória larga (Valença). Paralelamente, há pelo menos um concelho em que a competição entre segundo e terceiro é particularmente apertada (Arcos de Valdevez), o que sugere que a estrutura de preferências não se reduz sempre a dois polos.
Do ponto de vista do comportamento agregado, os votos em branco e nulos mantêm-se baixos e estáveis nos concelhos mostrados (em geral entre cerca de 1% ou 2%), o que significa que a variação relevante está quase toda na dist
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