SOBRE ESTE E OUTROS INVERNOS

orientações para impedir a instalação de geada no coração humano

Marlene Ferraz
29 Jan. 2026 4 mins
Nós, bichos sociais

O começo de um novo ano tem, em território português, esta condição imposta de estarmos a viver o mais íntimo do inverno. Celebramos, claro, as promessas da futuridade, mas a abundância do frio e esta ausência de luz podem aumentar a tendência para nos acinzentarmos. Mais: sabemos da loucura lá fora. A movimentação dos impérios em avisos de poder, os protestos, as mentiras, as mortes. E até as eleições presidenciais. Se não soubermos manter o corpo a uma temperatura favorável, há o risco maior para que se instale geada sobre o nosso coração humano. Nas nossas sociedades monetizadas, em que praticamente tudo depende do nosso dinheiro (e das oportunidades, mais apropriadas ou não, para o ter), o país ou os homens desse país só têm valor se tiverem lucro ou utilidade. Há quem estime que, perante estes conflitos geopolíticos (e, podemos dizer, posicionamentos filosóficos), o mundo ficará mais instável e violento, e ainda que cada um de nós possa não ter a grandeza suficiente para descontinuar o abismo, temos – verdadeiramente – o poder de transformar a biosfera à nossa volta. A comunidade em que vivemos poderá ser eco desta nossa entrega ao outro, em que todos estamos interligados e, portanto, seremos mais resistentes aos muitos invernos se dermos as mãos e dividirmos o fogo. Somos bichos de manada, sobrevivemos pela entreajuda e temos de apostar num futuro em que as nossas almas não tenham de provar que merecem amor e misericórdia.

Estudos mostram que há povos indígenas com níveis de satisfação com a vida comparáveis aos dos países mais ricos (Público) e aponta-se motivos como a união entre pessoas, a experiência em ambiente natural e a espiritualidade. Todos podem ter o necessário e o importante. Nós, nas nossas sociedades consideradas avançadas, sentimos que o dinheiro não chega, que o poder de compra apertou e que não temos tempo suficiente para nos dedicarmos à florescência do espírito e ao cultivo do afeto. Mas não permitamos que sejam as vozes mais raivosas a conduzir a nossa revolução – é obrigatório lembrarmos que o que temos de mais humano é esta composição de histórias em comum. É nos levantarmos juntos num chão aguado. É estender o braço a quem se inunda nas chuvas diluviais. É plantar primaveras para que possam rebentar flores. Todos temos este desejo de sermos suficientes e amados por aquilo que somos. Mas não tentemos ser mais do que somos pela brutalidade, pela provocação, pela ofensa. Não nos sentiremos mais homens a vencer pelo ódio, pela força, pela falsidade. Seremos, sim, mais inteiros se curarmos as feridas que a bestialidade capitalista pratica e olharmos para cada um de nós como uma história preciosa. Todos importam.

“Enterrem o meu coração à parte. É frágil.” Abbas Kiarostami (poeta e cineasta iraniano)

ORIENTAÇÕES PARA IMPEDIR A INSTALAÇÃO DE GEADA NO CORAÇÃO HUMANO

> ser primavera quando o inverno parece demorar

> ver a nossa pessoa como parte dum coletivo maior

> explorar que valores consideramos prioritários para um mundo mais justo

> ter curiosidade sobre a experiência e ponto de vista do outro

> desacelerar e viver o momento de agora com abertura e entrega

> verificar a verdade das informações provocatórias

> lembrar que todos procuramos amor (e que só poderemos receber se também soubermos dar)

Floresçamos. Juntos.

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