O preço da exposição da candidatura a cargos públicos

Fernando Martins
28 Jan. 2026 4 mins

Há um fenómeno curioso e profundamente inquietante que se instalou na cultura democrática contemporânea: a ideia de que qualquer pessoa que se candidate a um cargo político, seja à assembleia de freguesia ou à Presidência da República, perde automaticamente o direito ao respeito. Como se o simples ato de dizer “quero ajudar, quero participar, quero contribuir” fosse entendido como uma espécie de convite público ao insulto, ao achincalhamento e à desumanização.

Pior ainda: esta convicção cristalizou-se ao ponto de parecer natural. “Quem vai para a política sabe ao que vai.” Ouve-se isto dito com a leveza de quem comenta o tempo. Como se fosse aceitável que alguém que se dispõe a servir a comunidade ficasse, por definição, sujeito a ataques pessoais, suspeitas infundadas e agressões verbais gratuitas.

Mas não é aceitável. E nunca deveria ter sido.

Vivemos num tempo em que a exposição pública já não depende da dimensão do cargo. Candidatos locais que muitas vezes são nossos vizinhos, voluntários, pessoas que trabalham durante o dia e se reúnem à noite para pensar e gerir o bem comum  são tratados nas redes sociais com a mesma violência verbal que figuras de projeção nacional. A diferença é que não têm assessores, não têm equipa de comunicação, não têm escudos. São cidadãos comuns, expostos a um fogo cruzado de comentários que, em muitos casos, nada têm a ver com política, mas sim com a frustração, a raiva, o anonimato confortável e a sensação de impunidade que as plataformas digitais alimentam.

Há quem confunda crítica com ataque. Mas uma democracia adulta sabe distinguir as duas coisas. Criticar políticas, decisões, comportamentos públicos, isso é vital para uma democracia saudável. Mas insultar a pessoa, questionar a sua dignidade, atacar a sua vida privada, apelidar, humilhar? Isso não fortalece a democracia. Enfraquece-a. Empobrece o debate. Substitui ideias por agressões. E, talvez ainda pior, desencoraja os melhores de participarem.

Um país que insulta quem se candidata é um país que, sem se dar conta, se condena a que só se candidatem os que aguentam o insulto e não necessariamente os mais competentes, os mais íntegros ou os mais preparados.

A violência verbal tem efeitos reais, embora muitos insistam que “são só palavras”. São só palavras… até alguém perder o sono. Até um filho pequeno perguntar porque o pai ou a mãe estão a ser insultados na internet. Até um candidato desistir. Até uma comunidade perder alguém que podia ter ajudado.

A democracia não é um reality show. Não é um ringue. Não é uma arena de gladiadores modernos onde se atira gente para o centro e se espera que sobrevivam a comentários lançados com a fúria leve de quem passa os olhos pelo ecrã.

Podemos e devemos exigir muito dos políticos: transparência, ética, competência, responsabilidade. Mas exigir não é o mesmo que destruir. O respeito não é um prémio que se dá a quem vence. É a condição mínima para que o debate exista.

Se não somos capazes de tratar os candidatos como pessoas com as suas  fragilidades, limites e vidas próprias, então talvez o problema não esteja na política mas sim em nós, enquanto sociedade.

No fim de contas, a democracia começa na forma como falamos uns com os outros, e nenhum país melhora insultando quem tenta fazer melhor.

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