Chamado ao Consultório: o jogo também é um vício

Maria Luís Cambão
19 Jan. 2026 4 mins

Uma mesa de café, quatro homens a jogar as cartas, cigarro na boca, o copo do fino (ou da imperial, caso esteja do Mondego para baixo) e, por baixo, a raspadinha. Certamente esta imagem não lhe será estranha. Muito menos a frase “Esta não tem nada, traga-me outra Sr. José!”. E outra, outra e outra a seguir. E quando não se consegue parar?

Este mês, é Chamado ao Consultório para falar sobre o vício do jogo. Um vício muitas vezes normalizado na nossa sociedade, mas que se tem tornado uma preocupação crescente, sendo o jogo patológico classificado como uma doença mental, incluído no grupo das perturbações aditivas, onde encontramos outros vícios, como o álcool ou drogas.

É natural que se esteja a questionar o que é isto do “jogo patológico”, por isso, passo a explicar. O jogo patológico caracteriza-se por alterações neurológicas que podem afetar as áreas do cérebro responsáveis pela tomada de decisões e pelo processamento de recompensas, levando à incapacidade de reconhecer os danos causados pelo comportamento de jogo.

Alguns sinais podem indicar-nos que uma pessoa está a desenvolver vício do jogo, como, por exemplo, quando o tempo e dinheiro que investe em jogo é cada vez maior, ou quando continua a jogar insistentemente para tentar recuperar o que já perdeu, ou quando o facto de não jogar lhe causa mudanças no humor, como irritabilidade, ansiedade ou até tristeza, ou quando os gastos financeiros se acumulam e tornam excessivos, desencadeando dívidas e mentiras. O foco passa a estar quase exclusivamente no jogo, descurando o trabalho, os estudos e as interações sociais. Muitas vezes, estas pessoas começam a minimizar as consequências, acreditando que podem parar de jogar a qualquer momento.

Mas desengane-se se acha que o vício em jogo é apenas uma questão de escolha. Na verdade, ele resulta de uma combinação de fatores pessoais, biológicos e psicológicos, sendo, também, o tipo de jogo, um fator importante na probabilidade de adição. Isto é, sabemos que jogos que oferecem recompensas imediatas são mais propensos a induzir uma adição do que aqueles em que o jogador tem que esperar para obter a recompensa. Por exemplo, as raspadinhas conferem um risco maior do que o Euromilhões, em que o jogador tem que esperar pelo dia do sorteio.

Recentemente, tem-se assistido a um crescimento marcado das plataformas de apostas online, com propaganda a entrar diariamente nas nossas casas através de todos os canais de televisão. Neste caso, a rapidez e a facilidade em mudar apostas em tempo real, a qualquer hora e em qualquer lugar, criam uma falsa noção de controlo, o que pode aumentar ainda mais o risco de dependência.

Acima de tudo, importa compreender que as pessoas com jogo patológico estão frequentemente cientes das consequências negativas, mas sentem-se num ciclo vicioso difícil de quebrar. Por isso, se acha que conhece alguém que pode estar nesta situação, acima de tudo procure apoiá-la e incentivá-la a procurar ajuda, seja um profissional de saúde mental ou o seu médico de família. Falar abertamente sobre o assunto, deve ser sempre o primeiro passo.

O tratamento do vício do jogo envolve várias estratégias e é desafiante, mas é possível. Contudo, as taxas de sucesso ainda não são as ideais. Isto torna claro que é fundamental investir em medidas de saúde pública e de regulamentação mais eficazes, de forma a apostar sobretudo na prevenção.

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