Rodrigo, de nove anos, estava no carro com a mãe e os dois irmãos mais novos quando a mulher perdeu subitamente a consciência, em Malpica do Tejo. Sem hesitar, pegou no telemóvel e ligou para o 112. Do outro lado da linha estava João Dias, técnico de emergência pré-hospitalar do INEM, colocado em Viana do Castelo e, nessa noite, ao serviço no Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) do Porto.
“Mal atendi a chamada, percebi pela voz ténue e pelo choro que se tratava de uma situação grave”, recordou o técnico. Durante mais de 20 minutos manteve o menino em linha. “Senti que tinha uma situação complicadíssima nas mãos e não podia facilitar”, acrescentou.
Na gravação tornada pública pelo INEM, no âmbito do Dia Europeu do 112, ouve-se Rodrigo identificar-se, explicar que a mãe, de 35 anos e com problema cardíaco, tinha desmaiado ao volante, indicar a localização junto a uma paragem de autocarro e até especificar o modelo do carro.
Seguiu instruções. Ligou os quatro piscas, falou baixo para não acordar os irmãos e transmitiu as queixas da mãe quando esta recuperou momentaneamente a consciência. “O Rodrigo foi mesmo um herói, tinha uma literacia em saúde e uma maturidade fora do normal”, afirmou João Dias.
A mulher foi assistida pela VMER e pelos Bombeiros Voluntários de Castelo Branco e encontra-se bem. Dias depois, o INEM deslocou-se à escola do menino para o felicitar e sensibilizar os colegas para o uso correto do número de emergência.
O caso ganha particular relevância à luz dos números mais recentes. Segundo dados avançados pela PSP ao Jornal de Notícias, das 5,4 milhões de chamadas feitas para o 112 em 2025, cerca de 73,5% foram consideradas indevidas. Entre estas, 1,2 milhões foram abandonadas antes de serem atendidas.
Há quem ligue por não ter saldo no telemóvel, já que o 112 é gratuito, mas também para pedir um táxi, um canalizador ou até uma pizza.
Apesar de o número total de chamadas ter vindo a diminuir nos últimos dois anos, o volume de contactos fora do âmbito da emergência continua a representar uma fatia significativa do serviço.
O 112 é o número único europeu de emergência, gratuito e acessível a partir de qualquer telefone, mesmo sem saldo ou cartão SIM.
Em Portugal, a chamada é inicialmente atendida por um operador da PSP ou da GNR, que encaminha para o CODU sempre que está em causa uma situação clínica.
No CODU, médicos e técnicos aplicam protocolos estruturados para avaliar a gravidade e decidir que meios enviar, desde ambulância, Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER) ou outros recursos diferenciados.
Em muitos casos, mantêm-se em linha até à chegada do socorro, dando instruções que podem ser decisivas.
O Sistema Integrado de Emergência Médica funciona 24 horas por dia e articula forças de segurança, bombeiros e hospitais.
Num país onde milhões de chamadas para o 112 são indevidas ou abandonadas antes de serem atendidas, o caso de Rodrigo mostra, de forma clara, o impacto que uma chamada correta pode ter. Numa situação de emergência real, a serenidade de uma criança de nove anos, capaz de seguir instruções, fornecer informações precisas e manter a calma sob pressão, mostra que informação adequada e sangue-frio podem salvar vidas.
João Dias, que começou como voluntário na Cruz Vermelha aos 16 anos e hoje integra a equipa do INEM em Viana do Castelo, resume a experiência como um dos momentos mais marcantes da carreira.
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