Quando o capitalismo automatiza a sua própria superação

João Azevedo
30 Jan. 2026 8 mins

Durante mais de um século, as teorias marxistas foram tratadas como uma relíquia do século XIX: interessantes do ponto de vista histórico, perigosas do ponto de vista político e, sobretudo, derrotadas pelos factos. O capitalismo sobrevivera a crises, guerras, revoluções e à concorrência do socialismo real. Parecia, aos olhos de muitos, ter provado a sua resiliência final. No entanto, há uma ironia histórica difícil de ignorar: é o próprio capitalismo, através da inteligência artificial (IA) e da robótica, que pode estar a criar as condições materiais da sua superação.

Karl Marx e Friedrich Engels nunca afirmaram que o capitalismo cairia por vontade moral ou iluminação ética. Pelo contrário: defenderam que cada sistema económico gera internamente as contradições que o tornam insustentável. O capitalismo, ao maximizar produtividade e eficiência, acabaria por reduzir a necessidade de trabalho humano — a fonte do valor e, simultaneamente, da sobrevivência da classe trabalhadora. Durante décadas, esta previsão foi considerada errada. A IA obriga- nos a reavaliá-la.

Podemos ver a automação como uma força revolucionária silenciosa. A diferença entre a atual vaga tecnológica e as anteriores não está apenas na velocidade, mas na natureza da substituição. A máquina a vapor substituiu força física; os computadores automatizaram cálculo; a IA substitui decisão, análise e criação. Estamos a automatizar aquilo que, até aqui, justificava a centralidade do ser humano na economia.

Segundo a OCDE, uma parte significativa dos empregos atuais será automatizada ou profundamente transformada nas próximas décadas, não apenas em tarefas rotineiras, mas em funções qualificadas. O Fórum Económico Mundial reconhece que a destruição de emprego poderá superar a criação líquida de novos postos. Este cenário encaixa de forma desconfortável na teoria marxista do valor-trabalho: se o trabalho deixa de ser necessário, deixa também de ser o fundamento da economia e da organização social.

Aqui surge a primeira contradição central: como sustentar uma sociedade de mercado quando o mercado já não precisa da maioria das pessoas para produzir valor?

As economias de mercado assentam num princípio simples: a escassez. O trabalho humano é escasso, o capital é escasso, a informação é imperfeita. A IA e a robótica atacam diretamente estes três pilares. Quando algoritmos produzem código, textos, diagnósticos médicos ou decisões financeiras a custo marginal quase zero, a lógica de mercado começa a falhar.

Não é por acaso que autores como Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee falam numa “economia da abundância digital”, onde o valor deixa de estar na produção e passa para a distribuição e no controlo dos sistemas . O problema é que as nossas instituições continuam desenhadas para um mundo de escassez, competição salarial e crescimento infinito.

Marx falava da concentração dos meios de produção nas mãos de poucos. Hoje, esses meios não são fábricas fumegantes, mas infraestruturas computacionais, dados, modelos de IA e capital tecnológico. A lógica, porém, é semelhante. Um número reduzido de empresas controla sistemas que produzem valor de forma autónoma, escalável e global, com custos marginais próximos de zero, ou seja, estamos perante a concentração dos meios de produção… novamente.

Este fenómeno empurra o capitalismo para um paradoxo extremo: produtividade crescente com rendimentos estagnados ou decrescentes para a maioria. É nesta linha de pensamento que Thomas Piketty tem mostrado que, sem mecanismos fortes de redistribuição, o capital tende naturalmente à concentração. A IA não corrige esta tendência — acelera-a.

Neste contexto, a especulação financeira surge como sintoma, não como causa. Quando a economia real deixa de absorver trabalho humano, o capital procura rendimentos em circuitos cada vez mais abstratos., um fenómeno que Marx descreveu como “capital fictício”. A atual “financeirização” extrema confirma essa leitura com uma precisão desconcertante.

Marx tinha razão… mas não como pensávamos. Importa ser rigoroso: Marx não antecipou a inteligência artificial, nem a economia digital. O que antecipou foi algo mais profundo — a lógica interna do capitalismo enquanto sistema que se expande até minar as suas próprias bases sociais. A automação generalizada não é, em última instância, um desvio do capitalismo, mas antes a sua mais pura expressão.

Por isso, a grande ironia é mesmo esta: não será o proletariado organizado a derrubar o capitalismo, mas o próprio capital, ao tornar o trabalho humano economicamente redundante. Se a produção pode ocorrer sem trabalhadores, o mercado de trabalho deixa de ser o eixo organizador da sociedade. E, com isso, colapsa a principal engrenagem de legitimação do sistema: trabalhar para viver.

Aqui o debate bifurca-se perigosamente. Numa visão pessimista, a IA empurra milhões para a irrelevância económica. Uma elite controla os meios automatizados de produção, enquanto o resto da população vive de transferências mínimas, com pouco poder político ou social. Este cenário não é ficção científica: é uma extrapolação lógica das atuais tendências de concentração tecnológica e de capital.

Numa visão alternativa — e ainda pouco explorada politicamente — a automação pode libertar o ser humano do trabalho instrumental e permitir uma reorganização social baseada em tempo, criatividade, cuidado e participação cívica. Mas isto exige uma rutura consciente com a ideia de que o valor humano mede-se pela produtividade económica.

Como lembra Hannah Arendt, confundir trabalho com sentido de vida é um erro civilizacional. A IA obriga-nos a enfrentar essa confusão de frente.

É aqui que a analogia marxista se torna perturbadoramente atual. Marx e Engels defendiam que, num estágio avançado das forças produtivas, a sociedade poderia libertar-se da lógica da escassez e da alienação do trabalho. A IA torna esse cenário tecnicamente possível, mas politicamente indeterminado.

Economistas como Thomas Piketty alertam que, sem mecanismos de redistribuição robustos, a automação ampliará desigualdades a níveis politicamente insustentáveis . A resposta não pode ser apenas “requalificação”, um conceito repetido até à exaustão e cada vez mais vazio. Nem todos serão programadores, nem precisam de o ser.

Sendo assim, podemos questionar se o triunfo do marxismo dar-se-á através do capitalismo? A pergunta impõe-se, mesmo sendo desconfortável: poderá a revolução dos mercados conduzida pela IA aproximar-nos de uma sociedade pós-mercado, como Marx e Engels imaginaram? Em abstrato, sim. Na prática, apenas se forem feitas escolhas políticas conscientes.

Sem intervenção, o mais provável não é uma sociedade emancipada, mas uma sociedade dual: abundância automatizada para poucos, subsistência administrada para muitos. Um “pós-capitalismo” sem emancipação, onde o mercado já não organiza a vida, mas o poder tecnológico sim.

O marxismo não triunfará automaticamente. Mas o capitalismo, ao seguir a sua lógica até ao limite, reabre perguntas que julgávamos encerradas: quem produz valor, quem o distribui e com base em que legitimidade?

A IA não valida Marx como dogma, mas antes, a sua intuição central: os sistemas económicos não são eternos. Mudam quando as suas contradições internas se tornam impossíveis de gerir. A questão já não é se o trabalho continuará a ser o centro da vida social, mas o que colocaremos no seu lugar.

Se a resposta for apenas mais mercado, mais especulação e mais concentração, o conflito será inevitável. Se, pelo contrário, aceitarmos que a tecnologia pode libertar tempo, reduzir alienação e redefinir valor, então talvez estejamos a assistir a algo verdadeiramente inédito: não a vitória de uma ideologia, mas a superação silenciosa de um modelo histórico.

O verdadeiro desafio não é tecnológico, é político e moral. Quem controla os sistemas de IA? Quem beneficia da produtividade automática? Como se distribui valor num mundo onde o trabalho humano não é central? Estas perguntas são sistematicamente adiadas porque colocam em causa interesses instalados e modelos de poder.

A escolha não é entre mercado ou planeamento central, entre capitalismo ou socialismo. A escolha é entre adaptação consciente ou colapso por inércia. Continuar a organizar a sociedade como se o trabalho fosse escasso, quando já não o é, é uma receita para instabilidade permanente.

O futuro não será pois marxista nem capitalista por decreto. Mas pode muito bem ser moldado por uma ironia que Marx teria apreciado: o capitalismo a automatizar a sua própria negação. Enfim uma conclusão: esta história não acabou, mas antes pelo contrário, foi acelerada.

Tags Opinião

Em Destaque

Notícias atuais e relevantes que definem a atualidade e a nossa sociedade.

Opinião

Espaço de opinião para reflexões e debates que exploram análises e pontos de vista variados.

Explore outras categorias