O Poder Pelo Poder – A Despedida Indigna de Alguns Autarcas

Fernando Martins
22 Jul. 2025 3 mins

Em democracia, o poder político deve ser, acima de tudo, um serviço temporário e responsável. No entanto, a realidade em várias autarquias vianenses revela um cenário diferente: uma sede de poder insaciável, mesmo perante o fim de mandato, por parte de alguns autarcas que recusam abandonar o palco. Pior ainda, alguns não só procuram formas de contornar a lei que os impede de se recandidatar como cabeças de lista, como adotam uma postura agressiva e desrespeitosa em relação a adversários e eleitores que ousam confrontar a sua hegemonia. Se a isto adicionarmos a passividade de representantes de altos cargos públicos a assistirem e a nada fazerem, torna-se numa situação lamentável que lhes retira o que possa restar de credibilidade.

A lei da limitação de mandatos, aprovada para impedir a perpetuação no poder e fomentar a renovação democrática, é clara: um presidente de câmara ou junta de freguesia só pode exercer três mandatos consecutivos no mesmo cargo. Ainda assim, encontramos múltiplos exemplos de autarcas que recorrem a truques e artifícios para se manterem na sombra do poder.

Um dos métodos mais comuns é a chamada “candidatura fantoche”: o autarca apoia e controla diretamente um sucessor de confiança — muitas vezes um familiar, braço-direito ou assessor — que se apresenta como cabeça de lista, enquanto o verdadeiro poder continua a ser exercido nos bastidores. Em alguns casos, o ex-presidente é colocado em segundo lugar na lista, garantindo presença no executivo e mantendo influência decisiva sobre todas as decisões. Sempre que estas irregularidades são detetadas (seja antes, durante ou mesmo depois do mandato, na ausência dessa percepção pela Comissão Nacional de Eleições, cabe a cada um de nós formalizar a denuncia para que o(s) infrator(es) sejam responsabilizados.

Mas o problema não se limita à manipulação da lei. Há, igualmente, um padrão crescente de comportamentos autoritários e de linguagem agressiva por parte destes autarcas em fim de linha. Sentindo-se ameaçados pela perda de poder, muitos optam por atacar adversários com insultos pessoais, desinformação, intimidação e até chantagens veladas. Eleitores que manifestam simpatia por outras listas tornam-se alvos de represálias subtis: exclusão de apoios sociais, entraves administrativos e uma constante tentativa de silenciamento. Isto transforma o ambiente eleitoral numa guerra pessoal, em vez de um exercício democrático saudável.

Esta atitude revela uma noção distorcida de liderança. Em vez de verem a política como uma missão de transitoriedade e serviço, alguns autarcas encaram-na como um projeto pessoal, quase hereditário, em que a câmara ou junta se transforma num feudo privado. É a captura do poder pela vaidade e pelo ego, mascarada de “experiência” e “estabilidade”.

A democracia local merece mais. Merece líderes que saibam entrar e sair com dignidade, que respeitem a alternância e que não usem os recursos públicos para perpetuar redes de influência. A rotatividade não é fraqueza — é saúde democrática. E o eleitorado deve estar atento a estes jogos de bastidores, exigindo transparência, debate verdadeiro e um espírito de serviço que vá além da obsessão por permanecer no cargo.

Em política, como na vida, saber sair é tão importante quanto saber liderar. E há autarcas que, infelizmente, ainda não aprenderam isso.

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